Esquecidos no Tempo

por Dilvo Rodrigues

“Devagar e sempre, ninguém passa na frente.”, disse certa vez o poeta curitibano Sérgio Rubens Sossélia, falecido em 2003. Isso refletia um pouco da angustia do escritor a respeito da abrangência dos escritos dele junto ao público leitor. Ou seja, o medo de não ser lido por ninguém. O Enerst Hemingway, um dos escritores que mais influenciaram a literatura moderna, pretendia que seus livros fossem objetos de leitura e comentários por uns 40 anos, isso depois de publicados. Eu gostaria de escrever um texto para ser lido daqui até às 14 horas da próxima segunda-feira. Não que eu tenha a ânsia de ser lido por dezenas de lindas estudantes universitárias de direito, durante os cincos anos de faculdade, ou pelos intelectuais curitibanos mais bem vestidos de casacos de lã. Eu, se pudesse, gostaria de ser lido no ponto de ônibus por uma secretária ou por um office-boy, enquanto espera da gerente o comando para ir entregar a próxima condicional.
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O Tempo dos Outros

Por Dilvo Rodrigues

Um relógio está posicionado bem abaixo da TV presa em um suporte na parede, a uns dois metros do chão. A cama fica bem em frente aos dois, de modo que se o sujeito olhar um pouco para cima, ele acompanha o que passa na telinha. Se levar o queixo levemente em direção ao peito, assiste as horas passarem. O tic tac é presença constante nos ouvidos. Ora ofuscado pelo som das vozes dos apresentadores dos jornais, ora abafado pelas vozes dos visitantes, ora esquecido por um gemido de dor. Mas, quando a dor passa, o tic tac volta como querendo refrescar nossa memória. Parece que tudo em um hospital funciona em relação ao tempo. E ele faz questão de se mostrar, das maneiras mais diversas.
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