Um Gesto Político, Um Gesto de Amor

Foto por Robson Godoy Milczanowski
Foto por Robson Godoy Milczanowski

por Dilvo Rodrigues

Um fato que mudou a vida de Thiago Vinícius Lopes de Oliveira aconteceu quando ele e um grupo de jovens se embolaram uns aos outros, impedindo a saída de alguns ônibus da empresa de transporte público da cidade. Era um protesto contra o aumenta da tarifa e a qualidade de serviço prestado, em meados de 2013. A polícia foi chamada para retirar os manifestantes da portaria da empresa. Ocorria tudo “normalmente”. Os manifestantes faziam o papel de manifestantes. A polícia protagonizava o papel de polícia. O que me chamou a atenção foi a repetição de uma palavra e o bradar de um braço.

– Amor, amor, amor, amor.

Na época, eu voltei o vídeo por várias vezes para ter certeza. Era “amor” mesmo que o rapaz gritava. Eu me perguntava o porquê da palavra e quem era o sujeito que a pronunciava. Era o Thiago.
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O Triste Fim do Palhaço Leopoldo Part. III

por Dilvo Rodrigues

Leopoldo pegou as flores debaixo da cama. Olhou cada uma delas cuidadosamente, como se fossem amigas de longa data. Elas estavam perfumadas e vistosas, como se estivessem recentemente colhidas pelas mãos de um jardineiro fiel, gentil e cuidadoso. Acabou achando os sapatos que procurava, estavam bem atrás dos botões de rosa. Colocou as flores sobre a cama, pegou os sapatos com alguma dificuldade e voltou a se sentar na cama para calçá-los, amarrou os cadarços cuidadosamente, se levantou e olhou no espelho na porta do guarda-roupa, posicionado ao lado da cama. Conferiu os poucos cabelos que lhe restavam, o bigode branco que nunca aparava e a camisa desgastada pelo uso ainda lhe caía muito bem. As calças eram novinhas e os sapatos feitos sob medida. Leopoldo enfiou as mãos dentro dos bolsos, precisava de algum dinheiro para a condução. Havia alguns trocados num porta-jóias de madeira improvisado como “porta-dinheiro”. Jogou todas as moedas no bolso, um barulho danado a cada passo que dava, pegou as rosas e foi saindo de casa, esquecendo de trancar as portas e fechar as janelas.

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O Triste fim do Palhaço Leopoldo Part.II

por Dilvo Rodrigues

Eram oito da manhã de uma terça-feira, mas não fazia diferença. Era apenas mais um dia começando. Um dia que logo iria se tornar noite, uma noite que iria se tornar outro dia e assim sempre. Quatro a cada cinco pensamentos eram questionamentos de “por que fazer isso?” ou “por que fazer aquilo?”. O quinto pensamento abarcava todos os outros quatro, sempre dizia: “Isso tudo não faz a menor diferença.” E começava tudo outra vez. Era mais um dia que acordava, olhava o nariz de palhaço em cima da cômoda, que ele jurava ter removido à gaveta antes de ir dormir. O circo havia ido embora, nunca mais nem mesmo o barulho dos sacos de pipoca sendo arrastados pelo vento. Nunca mais!

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O Triste Fim do Palhaço Leopoldo

por Dilvo Rodrigues

“O espetáculo está chegando ao fim, senhoras e senhores.” A criançada faz uma carinha de triste, mas o palhaço tinha repertório para um último número. “Eu também sei tirar coelho da cartola. Vocês querem ver?”. “Sim”, disse a plateia, aos berros. “Vocês querem ver?”. “Sim!”, repetiu de novo a plateia. Ele jogou um pirulito dentro da cartola, acrescentou confete, um apito e uma ratoeira. “Tem que agitar bem agora! Você, você me ajude aqui a agitar com toda sua força, hein!”. A garota da primeira fila até apertou os dentes ao colocar toda sua força para misturar os ingredientes na cartola. O palhaço olhou encucado: “Tá faltando alguma coisa. O que tá faltando?”. “Jujuba”, gritou o joãozinho. “Tá faltando pipoca.”, “Tá faltando arco-íris.”, berrou algum pestinha la do fundo. Ele levantou o dedo indicador e ao mesmo tempo ia dizendo: “Não, não, não, senhoras e senhores. Tá faltando sorrisos.” Ele se aproximou de várias crianças pedindo para que elas sorrissem dentro da cartola. “Sorria, sorria, sorriaaaa.”. E tampou a cartola com uma das mãos para que os sorrisos infantis não fugissem.
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