Dos Olhos Amendoados

por Dilvo Rodrigues

Aqueles olhos amendoados me chegaram sorridentes, numa tarde chuvosa de novembro, procuravam ser ofuscados por sardinhas ligeiramente espalhadas pelos ombros, passando também logo abaixo do pescoço. Eles não deixavam mesmo de ser cúmplices de um sorriso, feito especialmente para aquela boca, aqueles lábios, completados por um par de olhos amendoados. Um retrato perfeito.

A verdade é que, primeiramente, me apaixonei por aquelas sardinhas. Mas, outros retratos deles foram então chegando. Um que especialmente me marcou, os apresentava bem marcados, contornados por algum apetrecho realçador, iluminados por uma luz de vida noturna. Aqueles olhos estavam lá, sorrindo para mim novamente. Não foram nada preteridos por um suposto decote, nem pelas sardinhas, que pelo fato da escassez de luz, não tiveram vez. Dois dias depois, eu disse a mim mesmo que aqueles olhos amendoados poderiam ser todos os meus motivos. E isso é o que eu digo agora.

Nunca os vi tristes. Nunca os vi chorar. E se um dia os ver dessa maneira, que para aqueles olhos amendoados eu tenha então mais que ombros e lenços. Foi o que pensei quando os encontrei pela primeira vez, numa tarde calorosa de janeiro, sonolentos. Necessitavam certamente de um café, sem açúcar, sem adoçante, bem forte e quente. Iam e vinham comprometidos com trabalho do momento numa academia de musculação. A trilha sonora não era das melhores, seria clichê dizer que eu preferiria tocar “Pela Luz dos Olhos Teus”. Talvez um dia você me diga que eu seja o dono desses olhos. Tenho medo, olhos amendoados, de desviar um segundo e perder esse exato momento. Tenha certeza, segundos depois, você verá esses meus castanhos se lamentarem profundamente, como se estivem tocando o chão do mar.

O lado externo dos olhos é levemente mais elevado do que os cantos internos. A pálpebra faz um arco onde a gente até poderia brincar de escorregar para um lado ou para o outro, feito criança em tobogã de parque de diversão. Já ouvi comentarem por aí que os olhos amendoados são os mais belos, considerados perfeitos. Nunca me dei conta, na verdade. Muitos podem ter chegado a centímetros de mim, permanecido anos ao meu lado, sem eu mesmo me tocar de reconhecer o formato deles. Insensível a esse ponto, mas não para vida toda. Não posso provar, mas garanto que hoje, quando fecho os meus castanhos, vejo apenas os seus amendoados me conduzindo passo a passo, a cada piscar.

Borboletas

por Dilvo Rodrigues

Nessa manhã, uma borboleta apareceu de repente no quarto. Achei incrível por que a janela e a porta ficaram fechadas a noite toda. Ainda deitado, vivendo minha depressão matinal, vi o bichinho voando desastrosamente para o corpo do violão. O ventilador estava ligado, cheguei a temer que ela fosse cometer a loucura de se aventurar num voo rasante pelas hélices do aparelho. Foi o que ela fez, mas correu tudo bem. Há muito tempo eu não via uma borboleta assim, tão de perto. A última foi na nuca de uma amiga que resolveu bater asas para bem longe daqui.
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