Caso Verídico: A Vizinha da Frente

por Dilvo Rodrigues

A vizinha do apartamento da frente passa o dia inteiro ouvindo música. Os cafés da manhã da Dona Rita são acompanhados sempre de alguma canção inspiradora, dessas que fazem a gente se sentir mais corajoso pra vida.

Ontem, por exemplo, acordei com aquela voz dormida entoando trechos de Cais, de Milton Nascimento. “Para quem quer se soltar,invento o cais. Invento mais que a solidão me dá.”. E termina o dia sempre com alguma canção sonolenta. Dessas que a letra não faz muito sentido ou não muito poética, mas que a melodia é quase um embalar de rede com brisa de mar.

Hoje, encontrei a Dona Rita no elevador. Ela perguntou se me incomodava aquilo o dia inteiro. Em tom de brincadeira, disse: “Só quando a senhora, todo sábado, coloca arrocha.” Ela me respondeu: “Com a música minha vida é poesia, é dor e alegria. Mas, às vezes, a gente precisa mexer o esqueleto também,né!?” Isso com um leve balançar de quadril. “Tá certo, dona Rita!”, disse. Coloquei meus fones de ouvido e fui.

Ah, Meu Amor

por Dilvo Rodrigues

“Quando você foi embora fez-se noite em meu viver.” É rapaz, essas músicas do Milton Nascimento fazem a gente se sentir feito o trecho de uma poesia do Carlos Drummond de Andrade, que diz assim: “Eu não devia te dizer. Mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.” Eu já deveria saber que o amor não é sempre grande e claro como a lua e nem mesmo forte e embriagante como conhaque. Mas, também, não posso dizer que o amor seja o diabo.
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