O Que é Ser Criança

por Dilvo Rodrigues

Ser criança é berrar e espernear por um pirulito. Depois de uma ou duas lambidas virar para mamãe e dizer que não quer mais e, assim, passar o resto da tarde de castigo. Ser criança é tirar uma dedo do pudim que se insinua na geladeira, deixar a mamãe nervosa ao ponto dela te fazer comer o pudim todo. E, depois de tudo, você nunca mais querer ver pudim na sua frente. É pular o portão para ir brincar na rua, quando os portões não tinham cerca elétrica. Pique-pega, pique-esconde e levar lancheira com suco, maça e um pão para escola faz parte da rotina de uma criança. A garrafa de suco da lancheira sempre vazando faz parte da rotina de uma criança. Ser criança é querer ser professor, bombeiro, caminhoneiro, astronauta ou dançarino quando crescer. Ser musa fitness, político, colunista social e crítico de arte não é coisa de criança.

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Tem Café Novo na Cafeteira

Por Dilvo Rodrigues

Eu nunca gostei de café. Mentira! Eu só gostava e tomava o café da minha avó. Me lembro até hoje da bebida fraca, com a consistência de uma melado que a gente adorava tomar nas canecas de ferro esmaltadas. Digo “a gente” por que eu e meu irmão mais novo nos empanturrávamos do café dela, o dia inteiro. Dona Hilda ainda tem um desses moedores de café mais antigos, de manivela. Os grãos ficavam armazenados numa vasilha de plástico do lado da banqueta em que o moedor estava instalado. Ela enchia a boca do moedor de café e girava a manivela. O barulho do café sendo triturado e o cheiro se espalhavam pela casa. A gente ia correndo para a cozinha e ficava esperando. A água ia fervendo no fogão a lenha. O pão sovado dava as caras na mesa, na companhia de um queijo e uns biscoitos de maisena. Cada um pegava o que queria e ia sentar lá na varanda da casa, que fica no alto de um morro esburacado que nunca soube o nome. Mas que dava vista para meio Marilac.
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