Nascidos da Terra

A cada passo dado nesse solo vermelho, a terra é que deixa suas pegadas nas solas de meus pés. Ao passo que caminho nessa estrada, percebo que o por do sol pretende imitar a tonalidade do chão. Um ponto do céu parece se energizar em vermelho, o que dura apenas alguns minutos. No fim, volto a ficar impressionado com a tonalidade da terra e com o extenso verde dos campos de soja. Além dele, apenas o tonalidade negra do asfalto vence as marcas da terra. Mas isso, só lá muito longe da parte rural da cidade.

A história conta que os solos vermelhos ou roxos são muito férteis. Não foram os que Pero Vaz de Caminha encontrou na Bahia, nos idos do descobrimento do Brasil, mas corroboram a assertiva enviada na carta endereçada à Coroa Portuguesa – “Nesta terra, em se plantando, tudo dá”. Já me peguei pensando que talvez tenha sido retirado dessa terra o pó que Deus utilizou para construir o homem. Por isso, o sangue é vermelho, a carne é vermelha.

Toda vez que volto a essa terra e a toco com meus pés ou com minhas mãos, me sinto regenerar. Como se, pouco a pouco, parte do pó de minha essência tivesse sido perdida pelos caminhos da vida. Aqui, com os pés no chão, as lacunas abertas pela gastura das lutas são novamente preenchidas. A essência com que a força divina me construiu se põe novamente em completude, algo que só acontece nesse regressar. Mas sempre acontece. Por isso digo, não é preciso morrer para voltar à terra, basta viver.

Com um pouco mais de atenção, é possível perceber que não só os homens foram feitos dessa mesma matéria-prima. Por aqui, os cães e gatos estão manchados dela, assim como os cascos dos cavalos, os pneus dos carros, as árvores e as frutas, as aves, os rios, a cidade, que sobrevive dos produtos desse solo. Porém, comemora o pavimento, o anti-pó, a barra da calça sem carrapicho. Que bom que isso é só lá, muito longe da parte rural da cidade. Triste é tentar esconder de onde viemos, o que somos. Me dou conta disso, quando viajo por outras terras tão belas quanto essas.

Certa vez um professor contou ter tido uma doença que o fazia comer terra. Olhando agora para esse vasto vermelho e para tudo que a partir dele toma vida, eu diria hoje para meu caro professor que isso não é doença, que nada. No máximo, é um ritual de autofagia. Ou seja, aquilo que acaba se nutrindo da própria carne, do próprio espírito ou essência. Separar o homem da terra é o pior dos males da humanidade. É como impedir dois irmãos de viverem juntos, ou de retirar um filho da presença do próprio pai ou de sua mãe. Pode ser que seja pior, pois talvez seja a maneira mais radical de apartar o homem de si mesmo. Por isso, não me canso de dizer: É preciso voltar para terra.

Tão Bichos, Tão Feios

por Dilvo Rodrigues

Foi durante o exílio no Chile e, posteriormente, na Guiné-Bissau, onde Paulo Freire tipicou as bases do que, segundo o educador e filósofo brasileiro, seria o problema central daqueles dias, a desumanização. Um processo que, na concepção de Freire, marca o roubo da humanidade de uns por outros. A coisificação da figura do ser humano já tinha sido retratada década antes, nos versos de Manuel Bandeira, no poema “O Bicho”, em 1947. Na imundice, um ser achava qualquer coisa para comer, não cheirava, porém, engolia vorazmente o que era encontrado ali. Hoje em dia, muitos cientistas da relações sociais repetem aos quatro ventos a causa do retrato feito por Manuel Bandeira; ganância e poder. Como se há 70 anos George Orwell já não tivesse dado nome aos bois e aos porcos em “A Revolução dos Bichos” – Aqui na face da terra só bicho escroto é que vai ter. Salve Titãs!

Entrevistei um morador de rua. Me sentei ao lado dele e comecei a conversar. Sr. Orênio, sempre nas redondezas da rodoviária de Valadares. Ele, mau cheiroso, magro, sujo e triste. Eu ali pensava se o Sr. Orênio era uma reflexo da podridão que eu escondia em mim e que todas as outras pessoas escondiam e escondem também. Eu saí dali arrumado, penteado e cheiroso, mas sujo, podre, uma aberração. Não faltava muito para que eu me enxergasse como uma mosca Kafkaniana. Eu contestava Maiakóvsky em “gente é para brilhar”, com coro reforçado por Caetano Veloso: “gente é para brilhar, não para morrer de fome.”. Mentirosos! O Mundo está cada vez mais feio, disse certa vez o saudoso Antônio Abujamra. Sim, o mundo anda muito feio e, pode ser que eu também.

Antigamente, quando a corte portuguesa vivia no Brasil, era sinônimo de amizade, durante os jantares reais, que um metesse a mão do prato do outro e pegasse o que bem quisesse. É o que conta o historiador Laurentino Gomes, no livro “1822 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”. Nos restaurantes modernos, já é difícil compartilhar a mesa, dividir o rango então, é coisa para beato. Em pensar que glorificamos tanto o milagre da multiplicação, que também, a meu ver, foi o milagre da partilha. Muita gente vive uma religiosidade laica, ou seja, religioso da Igreja para dentro. Fora, continua bicho. Se bem que alguns a religião torna mais bicho ainda, mas isso é outra conversa.

Eu fui pedir açúcar ao vizinho, não antes de vencer cercas, muros e redomas de segurança do condomínio. Sendo possível que o dito cujo me encaminhasse ao vizinho do andar de cima. E batendo de porta em porta, pode ser que eu nadasse, nadasse e morresse na praia, de água salgada que só. Uma praia bem longe dos sonhos de Martin Luther King e da imaginação de John Lennon. Porém, tudo pode mudar e, mesmo em meio aos bichos, alguma humanidade seja capaz de se por de pé. Isso me conforta. O Dalai lama uma vez disse que “Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiúra, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente.”. É, pode ser que seja mesmo um conforto. Pode ser que um dia eu e o mundo deixemos de ser assim, tão bichos, tão feios.