Enquanto Florescem os Cactos

por Dilvo Rodrigues

Se eu tivesse recebido flores, as colocaria naquele vaso verde e rebocado que está encostado la no sótão. Eu nunca recebi flores. Nem violetas, nem girassóis, nem rosas brancas ou vermelhas. Minha casa não é muito propícia ao cuidado com plantas e animais, principalmente, os animais. Eu acho que bicho, cachorro, gato, papagaio, precisa de espaço, de terra. É igual criança. Precisa se sujar, correr por aí, com o vento batendo na ponta do nariz ou do focinho. Eu moro em apartamento. Até que poderia ter uma samambaia qualquer no canto da sala ou uma orelha-de-elefante. Não sei. Minha casa não é muita adequada, não recebe muito sol, é fria. Meu coração é que ficaria alegre pra danar de receber uma flor. Enquanto isso, crio cactos.

Minha mãe sempre teve plantas em casa. Quando era criança, as samambaias dela eram constantemente violentadas por bolas de futebol. Tinha um canteirinho de plantinhas que não resistia depois de duas ou três partidas de golzinho no quintal. Se na segunda fosse arrumado, no sábado, estaria totalmente arrasado. Resultado: Duas mãos de cimento e piso em cima. Adeus canteiro de plantas. O que ficou de saudade é o cheiro da dama da noite. Todo mundo deveria ter uma dama da noite em casa. Seja nas noites abafadas de verão ou no triste cair das folhas no outono, o perfume estava lá, atraindo mariposas e beija-flores. Quem dera um beija-flor atrevido voasse à janela lateral do quarto andar. Quem dera não fosse tão frio e a janela ficasse sempre aberta. Os cactos é que não sei por que aguentam bem esse tipo de ambiente. Às vezes fico matutando se existe alguma diferença entre cactos e flores de plástico.

Mas nada se comparava aos pés de manga, pé de goiaba, pé de mamão e limão que habitavam o quintal da casa de Antônio Dias. Era o dia inteiro comendo manga, comendo goiaba, machucando a mão no pé de limão capeta, na busca de fazer a limonada perfeita. Eu fico bobo de lembrar e pensar no tamanho das mangas que brotavam das margens do Rio Piracicaba. Era cada manga espada, sem precisar uma gota de agrotóxico, melhoramento genético e toda essa parafernália agrícola moderna. E é bom lembrar que tudo aquilo ali era o playground de brincadeira com os primos, afinal de contas a gente subia nas árvores e corria quintal afora, era doido para entrar no rio, mas o medo dos caboclos d’água era maior. Nosso playground era tão bom, tão bom, que a gente podia até comê-lo. E por isso eu penso que talvez ficaria mais feliz se ganhasse um pé de manga espada ou um pé de limão capeta. Mas, aqui é apartamento, não bate sol, é tão frio. O máximo que daria seria manga canivete e limão apático.

O bom é que eu tenho uma mania de achar que algumas pessoas tem jeito de flor e doçura de fruta. Há pessoas que aparecem em momentos especiais da nossa vida, feito rosas. Outras que são raridade, que a gente precisa cuidar muito bem, orquídeas. Não vou mentir e dizer que não existem as ervas daninhas. Existem sim. Assim como aquelas que alimentam o espírito e enchem nossas bocas de sorrisos, ou simplesmente, são vistosas aos olhos. Quando elas chegam, é como se a natureza fizesse festa na vida. Por isso, ainda tenho esperanças de um dia, ao soar a campainha, depois de abrir a porta, dar bem de cara com uma bela flor, ou de nariz com uma bela dama da noite. Mesmo nesse lugar, meu coração iria ficar feliz pra danar. Enquanto isso, não sei por que motivo, florescem os cactos.

As Flores do Bem

 

por Dilvo Rodrigues

Quando contaram a Zélia Glaucia do Monte a história de um paciente renal crônico que vinha à Governador Valadares constantemente para fazer hemodiálise e, que essa pessoa passava as noites dormindo debaixo de marquises com um parente, ela ficou bastante sensibilizada. O paciente tinha 12 anos de idade e estava acompanhado da mãe. Zélia imaginava a cena de uma criança na rua, passando necessidades de todos os tipos ao mesmo tempo em que lutava para sobreviver. Pensava no sofrimento na mãe do menino, de mãos atadas e vendo o filho sofrer daquela maneira. Na época, isso levou a estudante do curso de administração à ação. Nascia uma vontade; Abrigar pacientes renais crônicos e oncológicos durante o período de tratamento realizado fora de suas residências. Mas como?

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O Vendedor Noturno de Rosas Verdadeiras

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por Dilvo Rodrigues

Quando era jovem Acir não tinha liberdade para presentear sua namorada com flores. Menos ainda pegar na mão, muito menos ainda ficar de agarramento em público. Se alguém visse a filha do fulano abraçada com o filho do ciclano era um Deus nos acuda. Abraçar só era permitido depois do casamento. Em Nacip Raydan, sua cidade natal, aproveitava as noites de lua cheia junto com uma turma de amigos e embalava serenatas nas janelas mais distintas, que tinham sempre algo em comum; flores.
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