Joga Pedra no Rio

por Dilvo Rodrigues

Tem gente que joga pedra no rio.
Tem gente que joga sofá no rio,
Mata um desafeto e joga no rio.
Pneu e garrafa pet, joga no rio.
É tudo o que tem de coisa ruim que sai da gente e a gente joga no rio.
Ignorância, principalmente.
Mas fico nervoso mesmo de gente que joga pedra no rio, pra bater três vezes na lâmina d’agua, feito três tapas na cara do coitado.
Não contente, vem um outro e joga lama no rio.
Felizmente, a lama vai passar.
Mas o sofá e as pedras vão ficar lá, jogadas no rio.

Uma Ode à Solidão

por Dilvo Rodrigues

Uma vez assisti a uma matéria sobre o Minhocão, em São Paulo. O viaduto tinha sido fechado para automóveis, no período da noite, e isso dava destaque para o que acontecia nos prédios ao redor do elevado. Sem o barulho de motores, buzinas, rádio toca fitas ou mp3 dos carros, a reportagem colocava em evidência um fato comum à todos os que moravam ali, a solidão. O que o saudoso Renato Russo cantou ser “O mau do século”, na música “Esperando por Mim”. A mesma solidão que me faz lembrar a história de Christopher McCandless, contada no livro “Into The Wild” e levada ao cinema por Sean Penn. O Drama conta de um jovem que não se identifica com a sociedade onde vive e com as pessoas que fazem parte dela. O Dissenso é tão grande e intenso ao ponto de fazer com que McCandless fugisse, fosse em busca de uma realidade que o completasse. Eu sempre achei que a solidão mais dolorosa acontece assim, quando dentro da sua própria casa, você não se sente parte da família.

Eu não posso dizer que a solidão seja genuinamente ruim. Muitas vezes é preciso entrar em contato com o vazio interior, existencial. Talvez um pouco de solidão seja capaz de nos fazer mais humildes, refletir sobre o que eu sou ou que estou fazendo da minha vida, pelo o quê é realmente importante dar duro nessa vida, por isso sempre acreditei na solidão como um dos sentimentos humanos mais nobres. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer disse certa vez que “a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”. Mais ainda, pode ser que alguns espíritos excepcionais só possam ser forjados nela. Mas é verdade, é triste viver na solidão.

Estou lendo um livro espetacular. Se chama “Cartas a um Jovem Poeta”, do poeta alemão Rainer Maria Rilke, que foi um dos maiores poetas do século XX. O Livro é um apanhando de cartas enviadas em resposta a Franz Xaver Kappus. Franz estava desejoso de submeter seus poemas ao crivo do já famoso Rilke. Em uma de suas cartas, o grande poeta dizia que “existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar”. Ele continua dizendo serem muitos os momentos em que se quer trocar a grandeza da solidão por uma companhia banal, ter a companhia da “pessoa mais indigna”. Rainer compara a solidão à postura de não entendimento de uma criança sobre o mundo dos adultos. Porém, apesar da falta de compreensão dos acontecimentos, a postura da criança é sábia, já que no seu processo de crescimento ela se entrega ao entender, ao experimentar, ao conhecer. Diferentemente, os adultos se portam na defensiva perante a vida, as pessoas, as coisas e, até agem com certo desprezo. Conclusão: O não entendimento é estar sozinho, na grandeza da solidão. Se colocar na defensiva ou agir com desprezo é apenas agir por puro orgulho ou conforto.

Esse é um tipo de solidão, se assim posso dizer, chamada de solitude, em que o individuo se recolhe de forma voluntária. A diferença da solidão para a solitude é que a primeira sempre vai estar dentro de você, algumas vezes você vai encontrá la, noutras, não. E, se você encontrá-la ou vice-versa, não vai adiantar estar no meio de uma multidão de amigos. O caminho para solidão não é voluntário, você acaba caindo lá sem saber. A segunda, bom, depende. A solitude tem muito a ver com as nossas frases de redes sociais, sobre não mendigar a atenção daquele ser alheio total desinteressado em você. Você faz uma escolha, que muitas vezes se baseia em “antes só, a mal acompanhado”. A solitude também tem seus benefícios, existe muita gente chata, violenta, sem graça, coxinha e cheia dos mimimis por aí, não é mesmo!? Cada um com suas respostas.

“Um dos maiores prazeres concedidos ao homem sobre a terra é o de reencontrar corações que simpatizam com o seu.” A frase é do Chico Xavier. E ela me faz pensar que, até hoje, nunca conheci pessoas que ao se isolar reencontram esses corações. Mas sei de muita gente que mesmo na solidão aprendeu a valorizar aqueles poucos encontrados pela vida, o que pode ter percebido MacCandless ao fim de sua jornada interior. De repente, no auge do seu estado de necessidade e solidão, ele entende que a felicidade só é real quando compartilhada. Uma pena que isso tenha sido forjado no coração dele apenas tarde demais.

Bispo Filho: “A Literatura é o Lugar no qual as Pessoas Podem se Encontrar e se Reencontrar”

por Dilvo Rodrigues

Foi numa tarde de julho que eu me peguei atravessando a ponte do São Raimundo em direção à casa do poeta, escritor e professor Bispo Filho. Da ponte dava para ver o Rio Doce com águas baixas, correndo preguiçosamente entre as pedras, que já se destacavam. Mas a paisagem não deixava de ter sua beleza. Esse cenário influenciou e influencia a vida de Bispo desde que se entende por gente. O autor do livro “Meninos do São Raimundo” (em parceira com o cronista Roberto Lima), que já foi visto sob os olhares de Chico Buarque e Caetano Veloso e lançado em países como Portugal, Espanha e Estados Unidos, recebeu o Meras Crônicas para um bate-papo sobre literatura e poesia.

Meras Crônicas – O começo da sua história com a poesia está muito ligada ao lugar onde você mora, ao bairro onde você cresceu. Como foi esse começo e de quais maneiras a região do São Raimundo influenciou seu olhar para poesia?

Bispo Filho – Eu sempre fui uma criança muito tímida e solitária, tenho uma solidão desde que eu me entendo por gente. Aqui em casa sempre foi uma casa de músicos. Meu avô era maestro e tinha aqui praticamente uma banda completa. Nós brincávamos muito com música e com os instrumentos musicais. Acredito que foi daí que surgiu meu interesse pela arte. Depois, no primário, a minha avó, Dona Hercília, que talvez tenha sido a primeira educadora dessa parte de cá do Rio Doce, me ensinou a ler com quatro anos. Assim que aprendi a ler, veio o contato com os livros de poesia do Manuel Bandeira, da Cecília Meirelles que tínhamos também, dentro de casa. Ela promovia o que na época era conhecido como Auditório, que nada mais era um recital de poesias feito por alunos. Então, desde muito criança desenvolvi esse gosto por poesia. Algumas eu sabia de cor. Além disso, tive contato com teatro também.
Aos dez anos, um amigo do bairro me chegou e disse: “Vamos escrever poesia?” Eu disse: “Ah, mas deve ser muito difícil.” Aí ele falou que não era difícil porque tinha um homem que escreveu “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” e todo mundo gostava. Então, eu comecei a escrever poesia com essa inocência, escrevia um texto desabafo, aquela poesia derramada. Era a fase da adolescência. Quando eu completei 17 anos, tinha um outro menino, o Roberto Lima, que também era do bairro. Ele já escrevia, tinha ido para Juiz de Fora e entrou em contato com um grupo de pessoas que publicava uma revista de muita qualidade chamada The Lira. Eram jovens entre 18 e 20 anos. O Roberto então se envolveu com esse grupo. Quando veio em Valadares, me chamou para publicar um livro em Juiz de Fora, porque lá tinha mais recursos. Então, aos 17 anos publiquei meu primeiro livro de poesias, o Colosso Ciclone. Eu tinha feito uma música e tinha colocado essa letra, O Roberto gostava dessa canção. Assim, resolvemos colocar esse nome no primeiro livro. Então essas interações influenciaram muito o meu olhar para a poesia. E também a própria paisagem, o Rio Doce passando no fundo de casa, o canoeiro andando pra lá e pra cá, a Ibituruna.

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Aquele Mesmo Rio, de Outras Histórias

por Dilvo Rodrigues

Eu trabalho em frente ao rio. Não é assim, aquela coisa bucólica e romântica, não. Não é aquela cena de filme que a gente coloca uma cadeira ali às margens do Rio Doce, sentado com um computador no colo. Mas a água tá ali, passando do outro lado da rua. Ou seja, é só descer as escadas, apertar o botão “abre” do portão eletrônico, atravessar a rua e pronto. Acontece o barulho do rio passando, calma e poluidamente, fugindo para o mar. Amamos esse rio. Mas sabe como é? Nem sempre a gente sabe cuidar bem daquilo que ama.
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O Prato Feito Nosso de Cada Dia

Por Dilvo Rodrigues

Arroz, feijão, salada, batata frita, farinha e macarrão. Bife, bisteca ou frango. Ovo frito ou omelete. Uma montanha de arroz e um mar de feijão dividindo uns dos pratos. A salada vem ali, em outro. Duas rodelas de tomate, repolho ralado, cenoura ralada e três folhas de alface. Em um terceiro prato, chega o bife. – Mal passado, por favor, e com bastante cebola. -Bife acebolado! Às vezes, a porção de carioquinha ou feijão preto é que vem separada. Daí, o arroz toma conta de metade do prato, dois bifes com aquela gordurinha de lado e algumas batatas marotas. Pode ser que tudo venha em um prato só. Sal a gosto, azeite a gosto, pimenta a gosto. – Bom apetite, Senhor!
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