Caso Verídico: Hipocondríaco

Ansiedade, medo e solidão, disse o doutor. E continuou: Uma valorização excessiva do passado, negação do futuro e apatia momentânea.

O Médico não teve uma dúvida sequer do diagnóstico, sem titubear nomeou a enfermidade:

Sr. Dilvo, o senhor sofre de uma doença chamada “Tempo”. Sinto lhe dizer, não há cura, nem como frear o desenvolvimento da dita cuja. Entretanto, Sr. Dilvo, podemos começar hoje mesmo um tratamento paliativo que tem dado ótimos resultados.

Que tratamento seria esse, Doutor?, questionei

Viver!, disse.

Saí da sala e fui correndo tomar minha dose homeopática.

Caso Verídico: As Ilusões da Quarentena

por Dilvo Rodrigues

O uso constante de água sanitária causa irritação aos olhos, constatei. Tenho notado também que quando meus olhos estão sensibilizados a esse ponto, é difícil mantê-los bem abertos. Então, se preciso sair de casa, depois de uma simples faxina, tenho dificuldade imensa de enxergar o mundo. E, essa complicação afeta e muito minha compreensão do que acontece por aí. Por exemplo: Fui correr, depois da faxina. Era um percurso fácil, de 8 Km. A corrida seguia bem, me sentia inteiro, disposto até emendar aos 10 KM. De repente, num tropeço, desabo no chão. Eu, fora de mim, só via as pessoas chegando para me socorrer. Eu, zonzo, ali não sabia se mexia o braço ou a perna. Se levantava ou se aceitava a derrota. Foi quando alguém chama pelo meu nome. Não era possível que aqueles estranhos soubessem meu nome, concluí com dificuldade.

– Acorda, Dilvo. Dilvo, Acorda.

Quando realmente percebi o que estava acontecendo, aquilo não era um parque. Eu não estava correndo. Estava caído no corredor da casa. Indo da sala ao banheiro. A verdade é que, no alto do segundo mês de quarentena, eu estava mesmo era confundindo água sanitária com cachaça. Qualquer dois passos é uma maratona para um bebum. Entretanto, tenho certeza: A casa anda limpa que é uma beleza.

E, quem chamou meu nome foi o Rogério, meu papagaio.