Caso Verídico: Deus Protege os Bêbados

por Dilvo Rodrigues

Outro dia, fui a uma loja especializada em cervejas artesanais, queria experimentar algo diferente.
Me vesti adequadamente, e parti rumo ao ponto de ônibus. Duas conduções depois, cheguei ao “shopis centis”.
Cheguei lá, todo animado e perguntei ao simpático vendedor, o Roberto:
– Roberto, estou procurando uma cerveja diferente, de trigo. Me indicaram uma que chama Paulaner?
E o rapaz respondeu:
– Cerveja ótima. Tá 30 reais, cada. Se o senhor levar duas, posso fazer por R$ 50.
Daí, rapidamente, chegou a mente o nome de outra que gostaria de beber:
– E Erdinger?
– Temos sim, senhor. Sai a R$ 25 a garrafa, respondeu o vendedor.
– Me disseram de uma cerveja, acho que é gaúcha, chama Coruja.Tem?
– A Lager, garrafa de um litro, tá na oferta, por 30 reais.
Pensei numa mais em conta, fiquei até feliz de ter lembrado da Therezópolis.
– Essa não tenho, senhor.

Nesse momento, eu olhava para as estantes lotadas de tantas outras cervejas. Pensei que talvez não fosse o dia para beber uma cerveja diferenciada e bem gelada. O Roberto ainda tentou uma última cartada.

– Sr. a gente tem a Franziskaner, posso fazer por 20.
– Ah, obrigado.

Fui embora desolado, antes passei no bebedouro, para fingir matar a sede. Na saída do estabelecimento, do outro lado da rua, me deparo com um cartaz assim:

“Três Kaiser por 10 reais. A quarta é por conta da casa.”

Sem dúvida, naquela hora, tive certeza; Deus protege mesmo os bêbados.

No Caminho de Rato

por Dilvo Rodrigues

Todos deveriam dar valor a um bom barbeiro. Não é fácil encontrar um sujeito que corta o cabelo precisamente do jeitinho que a gente quer. Muitas vezes tive sorte, noutras, nem tanto. Hora ou outra, é necessário suportar uma tesourada fora de sintonia ali, um caminho de rato acolá. A verdade é que esses acidentes de percurso se tornam irrelevantes, se o profissional é agradável, educado, piadista. Mesmo porque ficar ali comendo cabelo, respirando cabelo, suando cabelo e em silêncio, é uma chatice da porra.

No salão do Alfredo o movimento é bem tranquilo, nunca foi preciso esperar. A poltrona costuma estar sempre livre. Fato esse que nunca entendi, já que ele faz um serviço de bastante qualidade. Talvez pelo fato de não ser conversador e ser dono de uma expressão pouco simpática, Alfredo afaste os clientes. Ainda assim, sempre me recebe com um bom dia ou um boa tarde, se despede com um muito obrigado, bom fim de semana, o que sem dúvida me faz concluir que Alfredo não é simpático, mas sem dúvida, é um camarada educado. Gosto disso. Para aplacar o comumente silêncio do estabelecimento, o sujeito teve a brilhante ideia de adquirir um rádio, o qual permanece sintonizado nas estações mais populares da cidade. Tem música sertaneja, brega, antiga e notícias de todos quilates e situações cotidianas. Vez passada, a caixinha transmitia a entrevista de um pré-candidato a Presidência da República, na qual o sujeito se descrevia como um liberal, em termos econômicos, e conservador nos costumes. Aquela lorota toda.

– Rapaz, tô pra te dizer que vou votar no Bolsonaro. – soltou Alfredo, enquanto raspava a parte lateral do meu cabelo com a máquina dois.

Tomei um susto. O danado do homem resolveu falar além de suas expressões corriqueiras e educadas.

– Você vai votar em quem? – perguntou.

Eu não sabia o que responder, nem atentei exatamente para a pretensa dúvida do voto dele, com a posterior curiosidade sobre o meu. Fiquei olhando a cara do Alfredo no espelho, ele lá me olhando com a danada da máquina na mão.

– Eu não voto no Bolsonaro, acho ele despreparado. Seria pior que a Dilma na questão do diálogo. Imagina a relação dele com o Congresso, como seria? – argumentei, enquanto o homem terminava com a máquina.

– Mas, então quem você acha mais preparado para o cargo? – questionava Alfredo, ao mesmo tempo começava a preparar a navalha.

Eu engoli seco. O sujeito que nunca conversava, de repente, declara voto no Bolsonaro e, com uma navalha na mão, quer saber em quem eu votaria. Muito esquisito isso, pensei.

– Olha, geralmente voto na extrema esquerda. Nas últimas eleições, por exemplo, votei no Plínio de Arruda, que era do Psol. Nessas eleições, é possível que meu voto vá nesse sentido. Tô achando que seria melhor passar a máquina um e meio aí na lateral do cabelo, emendei. O homem descansou a navalha na bancada, e sem titubear já trocou o pente do aparelho e mandou ver.

– Ah, esses caras são iguais ao Lula, dizem que vão governar para o povo, mas roubam o povo. Comunista não presta! Você é comunista?

Eu olhei para a navalha brilhando, parecia afiadíssima, e o Alfredo é mão firme pra danar. Eu lembrava da época em que morria de paixão pelos ideais comunistas, pensando que até hoje algo daquilo ainda vive em mim. Engoli seco, estufei o peito e disse que respeitava muito os comunistas, questionar o sistema é no mínimo uma atitude louvável.

O corte estava totalmente pronto, restando apenas o acabamento. Nessa hora, sempre reforço que não é pra passar navalha na frente do cabelo e que também não é pra mexer no formato da costeleta. O Alfredo então pega a navalha e passa mais uma mão de álcool na lâmina, que sempre é aberta na minha frente. Naquele momento, minha insegurança havia passado, não temia a possibilidade de uma situação mais dramática. Ele pede pra eu abaixar um pouco a cabeça, encosta a lâmina gelada na minha nuca dizendo:

– Eu acho que no Brasil tinha de ter mesmo uma intervenção militar.
Eu só soltava um “Uhum”, mas por dentro pensava “Putz, fodeu!”
– Pra botar ordem nessa roubalheira. – Enquanto ele ia conduzindo o instrumento lenta e firmemente acima da minha orelha esquerda.
– Uhum.
– Acho que o Bolsonaro vai colocar o Brasil no eixos. Mas não precisa de ditadura. – A lâmina contornava minha orelha direita.
– Uhum.
– Não precisa matar ninguém. – A lâmina de novo na minha nuca.
– Uhum.
– Não é pra raspar na frente, né!?
– Não, não. E também não é pra mexer na costeleta.

Segundos depois, o corte estava finalizado. Alfredo arrematava o trabalho, limpando meu rosto com uma vassourinha repleta de talco. No rádio, o locutor se despedia do entrevistado, que afirmava o bordão ” O Brasil tem salvação!” Eu me levantava, abria a carteira e entregava 15 reais pelo serviço, no mesmo segundo em que o barbeiro pegava fortemente no meu ombro, dizendo:

– Muito obrigado, parceiro. Volte sempre!
– Obrigado eu! Sem dúvida voltarei.

Outro dia fiquei sabendo que Alfredo substituiu o rádio por uma televisão. Viu, desaconselho ir cortar no Salão do Jovandir, além de fofoqueiro, o sujeito parece engenheiro de caminho de rato na cabeça dos outros.

Esses Sonhos Imensos

por Dilvo Rodrigues

A senhora tinha sotaque mineiro, desses de gente que mora perto da capital. Nunca havia visto. Chegou sorrindo. Tinha um ar religioso, ao mesmo tempo, uma postura de mulher conhecedora das coisas terrenas. Eu chegava a duvidar. Ultimamente tenho duvidado dessas mulheres que sabem de tudo. Dos homens, tenho certeza, sabem nada.

– Quem é? – perguntei.
– Adélia.
– Adélia quem?
– Adélia Prado.

Ela entrou, se sentou. Ela deve ter olhado para todo mundo e cada um de todo mundo só olhou para ela. Inclusive, eu.

– Senhoras e senhores, temos a honra de receber no nosso Sarau a grande poeta Adélia Prado. – disse o locutor com voz de anunciação.

O sujeito passou o microfone. Ela abriu um folheto qualquer nas mãos e iniciou a leitura em voz baixa. Alguém gritou “Mais alto, Mais alto!”. A poeta olhou para o céu, pediu desculpas, virou a página do folheto e voltou a ler.

– Um grande homem precisa ter um coração, um coração que se apresse apenas em conquistar sonhos singelos. E os pequenos homens? Ah, esses são sonhos imensos.

Continuei sonhando.

 

O Triste fim do Palhaço Leopoldo Part.II

por Dilvo Rodrigues

Eram oito da manhã de uma terça-feira, mas não fazia diferença. Era apenas mais um dia começando. Um dia que logo iria se tornar noite, uma noite que iria se tornar outro dia e assim sempre. Quatro a cada cinco pensamentos eram questionamentos de “por que fazer isso?” ou “por que fazer aquilo?”. O quinto pensamento abarcava todos os outros quatro, sempre dizia: “Isso tudo não faz a menor diferença.” E começava tudo outra vez. Era mais um dia que acordava, olhava o nariz de palhaço em cima da cômoda, que ele jurava ter removido à gaveta antes de ir dormir. O circo havia ido embora, nunca mais nem mesmo o barulho dos sacos de pipoca sendo arrastados pelo vento. Nunca mais!

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