Caso Verídico: Deus Protege os Bêbados

por Dilvo Rodrigues

Outro dia, fui a uma loja especializada em cervejas artesanais, queria experimentar algo diferente.
Me vesti adequadamente, e parti rumo ao ponto de ônibus. Duas conduções depois, cheguei ao “shopis centis”.
Cheguei lá, todo animado e perguntei ao simpático vendedor, o Roberto:
– Roberto, estou procurando uma cerveja diferente, de trigo. Me indicaram uma que chama Paulaner?
E o rapaz respondeu:
– Cerveja ótima. Tá 30 reais, cada. Se o senhor levar duas, posso fazer por R$ 50.
Daí, rapidamente, chegou a mente o nome de outra que gostaria de beber:
– E Erdinger?
– Temos sim, senhor. Sai a R$ 25 a garrafa, respondeu o vendedor.
– Me disseram de uma cerveja, acho que é gaúcha, chama Coruja.Tem?
– A Lager, garrafa de um litro, tá na oferta, por 30 reais.
Pensei numa mais em conta, fiquei até feliz de ter lembrado da Therezópolis.
– Essa não tenho, senhor.

Nesse momento, eu olhava para as estantes lotadas de tantas outras cervejas. Pensei que talvez não fosse o dia para beber uma cerveja diferenciada e bem gelada. O Roberto ainda tentou uma última cartada.

– Sr. a gente tem a Franziskaner, posso fazer por 20.
– Ah, obrigado.

Fui embora desolado, antes passei no bebedouro, para fingir matar a sede. Na saída do estabelecimento, do outro lado da rua, me deparo com um cartaz assim:

“Três Kaiser por 10 reais. A quarta é por conta da casa.”

Sem dúvida, naquela hora, tive certeza; Deus protege mesmo os bêbados.

Caso Verídico: A Vizinha da Frente

por Dilvo Rodrigues

A vizinha do apartamento da frente passa o dia inteiro ouvindo música. Os cafés da manhã da Dona Rita são acompanhados sempre de alguma canção inspiradora, dessas que fazem a gente se sentir mais corajoso pra vida.

Ontem, por exemplo, acordei com aquela voz dormida entoando trechos de Cais, de Milton Nascimento. “Para quem quer se soltar,invento o cais. Invento mais que a solidão me dá.”. E termina o dia sempre com alguma canção sonolenta. Dessas que a letra não faz muito sentido ou não muito poética, mas que a melodia é quase um embalar de rede com brisa de mar.

Hoje, encontrei a Dona Rita no elevador. Ela perguntou se me incomodava aquilo o dia inteiro. Em tom de brincadeira, disse: “Só quando a senhora, todo sábado, coloca arrocha.” Ela me respondeu: “Com a música minha vida é poesia, é dor e alegria. Mas, às vezes, a gente precisa mexer o esqueleto também,né!?” Isso com um leve balançar de quadril. “Tá certo, dona Rita!”, disse. Coloquei meus fones de ouvido e fui.