Amor de Cinema

por Dilvo Rodrigues

As luzes se apagam, nossos dedos se entrelaçam e ficam ali, colados sessão adentro. Às vezes a gente se solta, para uma pipoca, uma bebida. Mas logo se procura de novo. E se acha, feito herói em busca do tesouro perdido.

No cinema, a vida dá lugar a ficção, a fantasia de uma felicidade completa e ininterrupta. É uma fábrica de sonhos. Mas tudo isso se dissolve, a realidade se coloca firme novamente porque estou conscientemente preso a suas mãos. Por isso, não invejo nenhum dos personagens que agora enchem a tela. Nesse cenário que eu mesmo criei, a atriz que eu mesmo escolhi, numa história que vence o tempo.

O som ecoa por toda a sala, as pessoas se arranjam nas poltronas, seus cabelos estão nos meus ombros, e dali você me olha num silêncio com tantas palavras. Eu não previ, mas isso encaixa bem no roteiro.

Na sequência do desfecho do herói, feliz pelos feitos alcançados, a sala ensaia um tom entusiasmado com o inesperado final. As luzes se acendem, nossas mãos se afastam, a vida volta ao começo, o que para nós é o fim. Um fim até o próximo lançamento.

Desencontros de Palavras, entre Sentimentos

por Dilvo Rodrigues

Ninguém me contou, nem mesmo saiu dos meus pensamentos. Essa história realmente aconteceu. Eu vi acontecendo, bem na minha frente. Não pude fazer nada, nada além de contar de uma mensagem virtual que foi para uma garota dos sonhos de um moço. Eu sei que as palavras diziam o seguinte:

“Todas as vezes que você viaja, fico olhando suas fotos. Acho interessante porque parece que você gosta mesmo de viajar e de conhecer outros lugares. Sua cara de felicidade é flagrante em cada click. E eu fico olhando cada uma delas, em algumas fico me imaginando em um lugar desses com você. Seria interessante, acredito. Porém, na verdade, eu queria ser mesmo o cara que fosse te recepcionar na rodoviária ou no aeroporto toda vez que voltasse pra casa.
Da última vez que te vi foi curioso. A gente nem se falou, mas teve um momento que você parou na minha frente, seus ombros estavam a mostra e eu comecei a pensar que eu queria ser o homem que conhecesse o caminho de cada um das suas pintinhas. Estava escuro, e por isso, aquele foi um dos poucos momentos que realmente acreditei na utilidade dos meus óculos, poder ver alguns dos seus detalhes.
Você deve estar achando que sou maluco, louco ou doidão de pedra. É, felizmente ou infelizmente, tenho um pouco de maluquice, mas controlada, é claro, por alguns avanços da medicina. Eu me imagino falando palavras assim pra você pessoalmente e me imagino em silêncio com você pessoalmente, como foi mesmo naquela última vez. Silêncio a distância, entre mim e você. Mas, minha maluquice maior é querer acreditar que nosso silêncio dure, a partir de um dia qualquer (que não tarde a chegar), só apenas enquanto eu conto as pintas do seu ombro ou mesmo enquanto eu conto as horas pra você chegar de viagem.”

O rapaz aguarda então uma resposta aos seus anseios e desejos apaixonados para com aquela moça. A resposta nunca chegou. Depois de muito tempo ele recebeu uma outra mensagem dela.

– Nossa! Que lindo. Você escreve muito bem.

Eu não contei, mas no lugar dele ficaria desolado. Naquele dia, meu amigo não disse nada. Aparentemente, não ficou triste, não ficou feliz com a mensagem dela. Ninguém me contou e acho que ele mesmo não vai me dizer. O que acontece, acho, é que ele ainda espera resposta. Aqui, fica entre nós, eu acho que teria dado mais certo se ele apenas tivesse chamado ela para tomar um chopp. Mas, isso são coisas do meu pensamento.

O Vendedor Noturno de Rosas Verdadeiras

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por Dilvo Rodrigues

Quando era jovem Acir não tinha liberdade para presentear sua namorada com flores. Menos ainda pegar na mão, muito menos ainda ficar de agarramento em público. Se alguém visse a filha do fulano abraçada com o filho do ciclano era um Deus nos acuda. Abraçar só era permitido depois do casamento. Em Nacip Raydan, sua cidade natal, aproveitava as noites de lua cheia junto com uma turma de amigos e embalava serenatas nas janelas mais distintas, que tinham sempre algo em comum; flores.
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Ah, Meu Amor

por Dilvo Rodrigues

“Quando você foi embora fez-se noite em meu viver.” É rapaz, essas músicas do Milton Nascimento fazem a gente se sentir feito o trecho de uma poesia do Carlos Drummond de Andrade, que diz assim: “Eu não devia te dizer. Mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.” Eu já deveria saber que o amor não é sempre grande e claro como a lua e nem mesmo forte e embriagante como conhaque. Mas, também, não posso dizer que o amor seja o diabo.
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