Caso Verídico: As Ilusões da Quarentena

por Dilvo Rodrigues

O uso constante de água sanitária causa irritação aos olhos, constatei. Tenho notado também que quando meus olhos estão sensibilizados a esse ponto, é difícil mantê-los bem abertos. Então, se preciso sair de casa, depois de uma simples faxina, tenho dificuldade imensa de enxergar o mundo. E, essa complicação afeta e muito minha compreensão do que acontece por aí. Por exemplo: Fui correr, depois da faxina. Era um percurso fácil, de 8 Km. A corrida seguia bem, me sentia inteiro, disposto até emendar aos 10 KM. De repente, num tropeço, desabo no chão. Eu, fora de mim, só via as pessoas chegando para me socorrer. Eu, zonzo, ali não sabia se mexia o braço ou a perna. Se levantava ou se aceitava a derrota. Foi quando alguém chama pelo meu nome. Não era possível que aqueles estranhos soubessem meu nome, concluí com dificuldade.

– Acorda, Dilvo. Dilvo, Acorda.

Quando realmente percebi o que estava acontecendo, aquilo não era um parque. Eu não estava correndo. Estava caído no corredor da casa. Indo da sala ao banheiro. A verdade é que, no alto do segundo mês de quarentena, eu estava mesmo era confundindo água sanitária com cachaça. Qualquer dois passos é uma maratona para um bebum. Entretanto, tenho certeza: A casa anda limpa que é uma beleza.

E, quem chamou meu nome foi o Rogério, meu papagaio.

Caso Verídico: A Vizinha da Frente

por Dilvo Rodrigues

A vizinha do apartamento da frente passa o dia inteiro ouvindo música. Os cafés da manhã da Dona Rita são acompanhados sempre de alguma canção inspiradora, dessas que fazem a gente se sentir mais corajoso pra vida.

Ontem, por exemplo, acordei com aquela voz dormida entoando trechos de Cais, de Milton Nascimento. “Para quem quer se soltar,invento o cais. Invento mais que a solidão me dá.”. E termina o dia sempre com alguma canção sonolenta. Dessas que a letra não faz muito sentido ou não muito poética, mas que a melodia é quase um embalar de rede com brisa de mar.

Hoje, encontrei a Dona Rita no elevador. Ela perguntou se me incomodava aquilo o dia inteiro. Em tom de brincadeira, disse: “Só quando a senhora, todo sábado, coloca arrocha.” Ela me respondeu: “Com a música minha vida é poesia, é dor e alegria. Mas, às vezes, a gente precisa mexer o esqueleto também,né!?” Isso com um leve balançar de quadril. “Tá certo, dona Rita!”, disse. Coloquei meus fones de ouvido e fui.

O Chão é Inevitável

Na maior parte da semana vou para ao trabalho de bike. É um pedal de uns 6 km, com trechos urbanos e uma grande parte percorrida numa BR, sem acostamento. Então, é melhor ir equipado. Capacete, luzes de posição (caso volte a noite) e uma parafernália de materiais para serem utilizados, caso o pneu fure ou alguma peça quebre ou dê defeito. Mas, em relação a bike, na verdade, se for dia de você ficar na mão no meio do nada, você vai ficar. É bom ir preparado.

Muito gente diz que que o ciclista é maluco, ou corajoso, “olha como ele é fitness” ou coisa que o valha. Na sinceridade? Não tem lugar onde ele se sinta mais vivo do que em cima da bike, na BR tomando chuvarada e lama na cara, movendo a corrente mesmo quando as pernas não querem mais. A vida é quase toda na estrada, tentando achar um lugar onde se encaixar . Então, é uma situação simbólica, metafórica da qual não se pode abrir mão. Além disso, é algo que não nos deixa esquecer de onde viemos, o que se quer. E essa é outra coisa da qual não se deve abrir mão. Esse lugar, o trajeto, a jornada, faz pensar se é o meio ou o fim que importa. Quando chegar o fim, se chegar, é dever informar a todos os outros viajantes de tais significados. Ainda que se saiba que dentro de cada viajante há um destino próprio.

Estar na estrada todo dia é como estar na vida. Qualquer coisa pode acontecer. Posso ser atropelado por uma carreta a qualquer momento, mas posso percorrer mais um trecho e estar onde quero estar, fazendo o que gosto, com quem gosto. Aceito o risco das duas possibilidades e isso também é a vida. Meio a meio! Não há medo do trajeto. É presente o medo de um dia não poder mais percorrer todos esses quilômetros, metro a metro. Existe o medo de percorrer cada centímetro e o lugar nunca chegar ou perceber que todos os giros rodados simplesmente conduzam a algo que não exista, ou que existe totalmente fora do almejado. Ou seja, chegar onde não se quer.

Quando passam tirando uma fina, o frio na espinha é espontâneo e sempre, automaticamente, levanto o braço, vibro e solto:” uhull, faz de novo!” Mas, seu moço, melhor num fazer, não – penso logo depois. A guria de 20 anos tira uma fina do guidão e te joga no chão. No cruzamento, o senhor não te vê, arranca o carro e…chão! Um desconhecido qualquer, arranca o carro, passa duas vezes em cima de você, empena suas rodas, entorta as canetas. Daí você levanta e, com as ferramentas disponíveis, coloca a bike para rodar do jeito que for possível. Começa de novo, da marcha mais leve para a pesada. O chão é inevitável. O asfalto machuca mais que a terra. O cascalho rasga mais a pele que o capim. Se jogue no chão se o destino lhe apontar um possível encontro com arame farpado, evite a estrada em dia de descargas elétricas. O capacete é seu único amigo.

Uso ombro como referencial para quem se aproxima de mim. Então, se o bitrem estiver muito pra dentro do ombro, melhor jogar a bike na vala, no mato, no barranco, no cascalho. Mas se não tiver como, então o jeito é arriscar a topada. Sem dúvida não vai ser bonito. Mas talvez seja menos doloroso que mordida na canela, menos frio que rajadas de vento, menos solitário que a distância da chegada. Se a carreta passa sem nos atingir, resta aproveitar o vento e aumentar a velocidade. O chão nos leva mais a frente, o coração dispara, a respiração ofegante, a gente se anima e se sente mais próximo da chegada. Entretanto, é bom estar preparado.

O Red Velvet

por Dilvo Rodrigues

Uma fatia de bolo. Era um vermelho escuro, quase da cor de sangue. Parecia macia, era bem macio. Fiquei com receio de experimentar, já que alimentos muito doces chegam a me dar calafrios, e uma vontade imensa de tomar água, muita água. Quando eu coloquei aquele bolo vermelho sobre minha língua, não percebi o perigo que corria. Uma perigo doce, profundo. Foi num final de tarde que o Red Velvet (também conhecido como Veludo Vermelho) me chegou, entre perguntas sobre meu gosto por doces, e respostas sobre minha preferência por coxinhas, lasanhas e pizzas. Aquele sorriso acompanhando uma assertiva, quase uma sugestão:

– Você vai gostar.

Eu já estava gostando. Eu gostava como se não houvesse outro dia, como se fosse o início da vida. Muitos homens são movidos por glórias e conquistas as mais impossíveis. Um Alexandre, O Grande, habitava dentro de mim, era o dono da terra, conquistando na força da espada todos os territórios os quais os olhos fossem capazes de ver. Não restava dúvidas de que mesmo ali, no gramado mal cortado, de uma casa simples, num final de tarde, eu era coroado. Sim, essas coisas gostosas da vida deixam a gente em êxtase.

Acostumado a broas caseiras, foi a primeira vez que experimentei o Red Velvet na vida. Nem nunca tinha visto um bolo vermelho, não sabia da existência. Não imaginava. A gente vai seguindo como se conhecesse todas as delícias da vida. Mais cedo ou tarde, chega algo novo. O mais interessante é que aquela coloração era resultado do emprego de algumas gramas de uma simples beterraba, um legume muitas vezes esquecido bem no fundo da gaveta da geladeira. Assim como as cenouras, em bolos de cenoura. Mas não é a mesma coisa. Só de olhar dava para ver que não era. Mesmo por que, os bolos de cenoura tem cor e gosto de cenoura, assim como os de laranja ou limão teriam seus respectivos sabores e texturas. Óbvio!

Quando era criança, minha mãe fazia muitos bolos. Nem me interessava pelo bolo em si. Uma coisa que adorava era lamber a tigela onde a massa era preparada. E “rapava” a vasilha toda, passava a língua e os dentes na colher, o que fosse. Era uma delícia. Era incrível como, ao menos para mim, a massa do bolo era mais gostosa que o bolo pronto. Eu poderia dizer que todos os bolos que minha mãe fez, os conheci na essência. Enquanto comia o Red Velvet fiquei me imaginando “rapando”o fundo da vasilha, todo lambuzado daquele vermelho beterraba. Infelizmente, não tive a oportunidade. Não conheci o Veludo Vermelho tão profundamente assim.

– O que mais tem nesse bolo?
– A cobertura é feita com chocolate, cream cheese. Na massa, limão e outras coisinhas mais.
– “Tendi.”

Maravilhado, seguia frequentemente para as padarias da cidade, só para comer o danado do bolo. Foram semanas de um vício regado a cafés e copos de leite gelado. Um belo dia, decidi pedir a receita para uma das moças por quem fui atendido. Foi então que descobri: o bolo levava essência de baunilha, corante vermelho e até vinagre. Descobri que, muitas vezes, não há uma raspa sequer de beterraba na massa. Aquela cor era toda feita artificialmente. A essência de baunilha era quem acentuava aquele sabor que, até então, era incomparável, natural, coisa de Deus mesmo. Eu andava pela rua um tanto tonto, sem entender o motivo do mundo, das coisas da vida. Até que, numa esquina, percebi que todos os meus questionamentos não faziam qualquer sentido. Ali, tive plena noção do meu perigo: meu paladar já estava integralmente refém daquele sabor, assim como meus olhos, completamente seduzidos por aquela cor.