A Medida de Nós Todos

por Dilvo Rodrigues

Era o ano de 2014, o Donna Duo havia chegado a final do reality show “Breakout”, promovido pelo canal Sony. A Dani Zan sentiu que aquele era o momento certo para dar asas ao projeto do primeiro CD da banda formada com a baixista Naíra Debértolis. Foram dois meses de trabalho, telefonemas e mensagens a um sem números de contatos. No fim do processo de arrecadação, 302 pessoas haviam doado uma moeda ou outra, um trocado, num total aproximado de R$ 27 mil. Hoje o CD homônimo da banda concorre ao Prêmio Açorianos de Música, considerado o Grammy dos gaúchos. Em 2001, uma jovem chegava à Curitiba, vinda da pequena Santa Izabel do Oeste, no interior do estado do Paraná, ela tinha poucos amigos na capital, um ou dois, talvez. Sendo que muitos daqueles dias foram levados a base de solidão e do estreitamento dos laços afetivos entre ela e seu instrumento musical, a viola. O nome dela era Daniela Zandonai. Queria viver de música. Talvez isso parecesse até uma novidade besta pra essa cidade, onde as pessoas mal se olham.

Quando resolveu se aventurar no cenário musical dessas bandas sulistas, integrou o coro dos artistas sertanejos. Tocava as mesmas músicas de todos os outros, falando de amor como todos os outros. Migrou para o sertanejo de raiz, ficou admirada com os regionalismos do estilo, com a temática saudosista de grande parte das músicas. Ouvia desde as modas rockeiras de Ricardo Vignini ao tradicional Índio Cachoeira. Porém, queria mais. Noutros acordes, poder cantar melodias próprias, seguindo o ritmo próprio que cada um acaba compondo sua vida, marcações e compassos inerente ao âmago de cada pessoa. Quem acaba olhando para dentro de si, acaba percebendo que dessa essência é impossível fazer cover. Ela então se descobriu compositora de mão cheia, cantora da recém descoberta e qualificada gramática da Música Popular Brasileira.

Recentemente, ouviu de um fã a admiração por escrever canções de amor livres de melancolia, entretanto com certa irreverência e muito gingado. Pode ser fruto do Pop-Milongueiro, categoria que ela e a parceira inauguraram com o Donna Duo. Sem dúvida, consequência de encontros ocasionados pelo mundo musical ou mesmo por um parceiro de casa que bombardeava os ouvidos dela com canções até então desconhecidas. “A gente acaba se transformando numa medida de todas as pessoas que passam pelo nosso caminho.” Posso acrescentar que das situações que vivemos na vida também. Assim acredito que vamos acabar percebendo essa equação em “Dinheiro”, mais novo e primeiro mini-álbum solo da carreira da Dani Zan, fruto de um processo de amadurecimento tanto músico, quanto pessoal.

A garota de 12 anos que aprendia os primeiros acordes de violão, nunca imaginou escalar os degraus da fama. Não imaginou ver um espetáculo de dança fluir a som de uma de suas mais novas canções. Ou ainda pode chegar a São Paulo, Rio de Janeiro ou em Porto Alegre e ouvir a plateia cantar suas músicas. Não seria previsível se o mesmo acontecesse durante uma apresentação na distante Recife. Ela tem escolhido trabalhar com pessoas talentosas e que estão trilhando a mesma longa estrada da vida. “Tenho preferido olhar para o lado á olhar para cima.”, disse. Quem sabe um dia poder tocar com algum artista que admira. Dani Black, ela disse. O sujeito que canta com o Milton Nascimento: “Eu sou maior do que era antes.”. Parece até que naquela equação, ela já tem alguns décimos do filho da Tetê Espíndola. Poderia estar pensando em escrever algo para a Maria Gadú, o que seria uma novidade tremenda para essa cidade. Mas aí, olhando tanto assim para cima, perderia a grande conquista de continuar olhando para o lado e ser vista também.

Mil Lápis e uma Vida

por Dilvo Rodrigues

Em uma de suas viagens internacionais, a professora Flávia Auler foi à Israel. Por lá, conheceu a “Via Dolorosa”, em Jerusalém, viu o “Mar Morto” de perto e, na cidade de Eliat, deu de cara com as margens azuis do “Mar Vermelho”. Uma viagem e tanto. Voltando ao Brasil, ao por os pés no aeroporto de Guarulhos, recebeu uma das notícias mais desagradáveis da cartilha de coisas desagradáveis para um viajante ou turista profissional: Teve a mala extraviada. No decorrer daqueles quinze dias de espera, as preocupações não giravam em torno dos cremes feitos com substâncias do Mar Morto, maquiagens e roupas adquiridas durante o passeio. O que tirava o sono da nutricionista eram os quase 50 lápis que iriam se juntar aos outros 800 de sua coleção. Hoje já devem ser quase mil deles.

No começo, os lápis nem tinham tanto lugar de destaque na vida dessa professora e viajante profissional assumida. No regresso, presenteava as pessoas mais queridas com modelos estilizados de acordo com o destino, principalmente recolhidos em visitas a Museus. A paixão por esses objetos só veio a tona em meados de 2007. Mas a possibilidade sempre esteve lá, desde que o pai dela ganhara um exemplar de 1957, postado via correio, com plástico bolha e tudo. Agora, é ela que tem aumentado boa parte da coleção com doações ou, mesmos, com presentes carinhosos de alunos ou colegas de trabalho. Sabe aquelas camisetas “Fui a Conchichina e lembrei de você!”? Pois é, para Flávia vale mais um lápis.

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Se engana também quem pensa que todo lápis é igual. Pode ser que uns tenham mais qualidade, alguns são mais fáceis de apontar, outros mais especiais. Durante a época da escola, os meus tinham ponta nas duas extremidades. Eles não tinham cabeça. Eu tive dezenas deles e nunca liguei para o fato de que eu poderia guardar todos para posteridade. Na época, a gente colecionava figurinha de álbum de futebol, moeda, cartão telefônico. Na verdade, a gente não sabe da importância que eles tem na nossas vidas e na história. Imagine só, quantos projetos de vida começaram na ponta de um lápis, quantos avanços da ciência, quantas poesias e romances. Sendo possível que se você errar uma vírgula ali, uma fórmula aqui ou uma rima, dá para lançar mão da borracha e tentar contrariar o saudoso Millor Fernandes em “Viver é desenhar sem borracha.”.

Nas proximidades do décimo ano da “carreira” de colecionadora, Flávia prefere pensar mais no futuro e no legado de relações de carinho e consideração, além da sua própria história que cada lápis pode contar. Sendo capaz de passar um pedacinho de cada sonho, de cada viagem, e das descobertas tanto dela mesma, como das pessoas que estiveram em volta daquele certo objeto. Uma espécie de álbum de fotografias. Pensei nisso logo quando terminei minha conversa com ela, no campus da PUC, em Curitiba. Era um dia esquisito, chovia e logo quando saía, começou uma chuva muito forte, o céu bem cinza. A Flávia havia me dado um lápis, um dos cartões de visita dela. Eu fiquei olhando aquele céu desabando água, mas imaginando que com ele eu poderia fazer o desenho de um sol amarelo, um castelo, uma gaivota a voar e um avião rosa e grená passeando pelas nuvens.

Uma Viagem, Uma Dobra, Um Acaso

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Foto cedida por José Carlos Fernandes

por Dilvo Rodrigues

Aos 13 anos, José Carlos Fernandes saiu de Curitiba, no Paraná, e foi para o interior de São Paulo, onde conviveu com mineiros, gaúchos, goianos, paulistas e outros tantos garotos, que também deixaram suas casas para viver em um seminário. Arrumou a mala, entrou numa kombi e foi para outra cidade, talvez por um chamado de Deus, um experiência mística, ao contrário do que ocorre costumeiramente com adolescentes, que nessa faixa etária começam a sentir mesmo são as vozes da mística hormonal. Longe do seminário, teria sido um jovem “travado”, atrás do balcão ajudaria o pai comerciante e não se tornaria um comprador compulsivo de livros. Especulações sobre o que não aconteceu à parte. Foi uma viagem, uma dobra, um acaso sem o qual ele não consegue imaginar sua própria existência, sua vida.

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Um Gesto Político, Um Gesto de Amor

Foto por Robson Godoy Milczanowski
Foto por Robson Godoy Milczanowski

por Dilvo Rodrigues

Um fato que mudou a vida de Thiago Vinícius Lopes de Oliveira aconteceu quando ele e um grupo de jovens se embolaram uns aos outros, impedindo a saída de alguns ônibus da empresa de transporte público da cidade. Era um protesto contra o aumenta da tarifa e a qualidade de serviço prestado, em meados de 2013. A polícia foi chamada para retirar os manifestantes da portaria da empresa. Ocorria tudo “normalmente”. Os manifestantes faziam o papel de manifestantes. A polícia protagonizava o papel de polícia. O que me chamou a atenção foi a repetição de uma palavra e o bradar de um braço.

– Amor, amor, amor, amor.

Na época, eu voltei o vídeo por várias vezes para ter certeza. Era “amor” mesmo que o rapaz gritava. Eu me perguntava o porquê da palavra e quem era o sujeito que a pronunciava. Era o Thiago.
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Um Coração na Ponta do Dedo

por Dilvo Rodrigues

Quando esbarrei com a Camila Gontijo numa boate, armei o quadro rapidamente e disparei o click.

-Oi, tudo bem? Meu nome é Dilvo. Eu sou jornalista e tenho um blog de crônicas, no qual escrevo histórias de pessoas e algumas estórias bem fantasiosas também. Você toparia contar um pouco a respeito da sua relação com a fotografia?

– Claro! Anota aí meu número e a gente conversa melhor sobre isso.

Foi simples! Peguei o telefone dela, entrei em contato e marcamos um bate-papo, para assim que ela ficasse menos atribulada no trabalho. Uma duas semanas se passaram, até que a fotógrafa me recebeu no seu estúdio.
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