Tem Um Pessoal em Linhares

por Dilvo Rodrigues

Lembra daqueles modelos de chinelo da Rider, com uma alça cobrindo a parte frontal do pé e com uma telinha para entrar ar? Aqueles estrelados pelo craque de futebol Careca, na década de 1990. Pois é, eles são moda entre alguns jovens de Linhares, cidade do litoral norte do Espírito Santo. Já tive um chinelo desses, o que já nem me lembrava mais. Muitos deles também usam bonés de aba reta, só que de uma forma peculiar. É como se a pessoa pegasse o boné e soltasse no topo do cabeça e o dito cujo ficasse lá, se equilibrando. Eu não tenho nada contra as pessoas usarem boné da maneira como lhes convir. E nem acho uma pena, porque se o boné não esconde a nuca toda, então da para sentir aquela brisa de mar marota que agita os cabelos dos menos carecas por aqui. Entre as meninas, é moda os shorts que deixam meia banda do bumbum de fora, tanto entre as mocinhas da periferia como entre as frequentadoras das lojas mais badaladas do Pátio Shopping. Essa história de sentir vento na banda da bunda não tenho interesse de descobrir se é bom. Mas aquela brisa que bate na nuca, toda manhã e toda noite, não tem preço!

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Os Penetras da Festa do Terraço

Ontem à noite dei uma festa aqui em casa. A festa estava acontecendo no terraço, onde ficam alguns materiais de construção, cimento, tijolo etc. Daí, alguns amigos me perguntaram se poderiam convidar outros amigos. Eu disse que tudo bem, ok! Meia hora depois o povo chega. Pessoal bonito até!

– E aí, tudo bem?
– Tudo massa!
– Tudo bacana!
– Fiquem a vontade. O terraço é de vocês!

Os novos convidados foram lá para o lado dos materiais de construção. Dois casais. Achei normal, no começo. Vai ver estavam sem graça com a turma. Depois de uns goles passava. Normal!E foi passando meia hora, quarenta minutos, uma hora! Nada do povo sair de lá!

Chamei o Junior.
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Amores que Veem e Amores que Não Vão

por Dilvo Rodrigues

Sílvia pediu um caixa de bombons de presente de Dia dos Namorados e Ricardo foi à loja, onde encontrou Priscila, um antigo amor de juventude. Ela não poderia sequer imaginar que Ricardo encontrara Priscila, que era viciada em bombons de licor. O Restaurante estava lotado. Clientes de longa data, Gisele e Patrícia já se preparavam para ir embora, quando chegava Romualdo e Andréia. Os quatro se olharam e se cumprimentaram friamente, assim como acontece entre desconhecidos. Na mesa, Romualdo soltou que havia perdido totalmente o apetite. Andréia não entendeu, já que o próprio Romualdo foi quem escolhera o badalado restaurante. Ele disse que era devido ao stress no trabalho. Na redação do jornal se comentava muito sobre uma possível demissão em massa de jornalistas. Andreia se solidarizou com a dor de “Mumu”. A verdade é que ele revivia mentalmente a cena em que foi pego em flagrante, no meio de um ménage à trois com Patrícia e Gisele. Sua ex-mulher havia contratado um detetive particular para segui-lo nas supostas entrevistas no meio da noite.

João namorava Carla, que foi noiva de Alberto. Ninguém nunca soube os reais motivos que levaram ao fim do noivado. A vizinha de frente do ex-casal suspeita até hoje que Carla não pode ter filhos. Alberto queria uma menina e hoje deve passar a noite sozinho, estudando para a prova do concurso de analista judiciário. João fez vasectomia depois da chegada dos trigêmeos, frutos do relacionamento com Aurora. A professora Letícia acha Rafael um partidão e não se contenta com as investidas de Pedro. Rafael se emociona com tudo que Pedro faz para conquistar Letícia. Rafael tenta ter coragem para fazer o mesmo por Henrique.

Dona Zelda e Sr. Francisco são casados há 43 anos. São cinco filhos, onze netos e um patrimônio de 4 milhões. No dia dos namorados vão ao Parque Barigui no Fusca em que ele a buscou no primeiro encontro. Naquela noite de fevereiro, Zelda empurrou o carro por 800 metros até o posto de gasolina e Francisco não tinha dinheiro para abastecer. No aeroporto, olhando as passagens para Florianópolis, Rodrigo desiste de tentar encontrar a garota que ele mais gostou na vida e ainda gosta. São dois anos sem notícias dela, muitas dúvidas e receios por parte dele. Ele não sabe que Sílvia está feliz com Ricardo. Mas que, vez ou outra, ela se pergunta por onde Rodrigo anda e se ainda pensa nela. O que só dura até Ricardo chegar com os bombons, sorrindo e com uma cara de bobo por ter visto Priscila tão bem.

Um Gesto Político, Um Gesto de Amor

Foto por Robson Godoy Milczanowski
Foto por Robson Godoy Milczanowski

por Dilvo Rodrigues

Um fato que mudou a vida de Thiago Vinícius Lopes de Oliveira aconteceu quando ele e um grupo de jovens se embolaram uns aos outros, impedindo a saída de alguns ônibus da empresa de transporte público da cidade. Era um protesto contra o aumenta da tarifa e a qualidade de serviço prestado, em meados de 2013. A polícia foi chamada para retirar os manifestantes da portaria da empresa. Ocorria tudo “normalmente”. Os manifestantes faziam o papel de manifestantes. A polícia protagonizava o papel de polícia. O que me chamou a atenção foi a repetição de uma palavra e o bradar de um braço.

– Amor, amor, amor, amor.

Na época, eu voltei o vídeo por várias vezes para ter certeza. Era “amor” mesmo que o rapaz gritava. Eu me perguntava o porquê da palavra e quem era o sujeito que a pronunciava. Era o Thiago.
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Na Saúde, Sim. Na Doença, Não

por Dilvo Rodrigues

– Verônica quer casar.
Disse-me outro dia a própria, se referindo em terceira pessoa.

– Verônica quer casar vestida de branco. Entrar na Igreja repleta de flores, acompanhada pelo pai orgulhoso e comemorada em lágrimas por amigos. Verônica quer encontrar o noivo no meio do caminho até o altar, significando que agora a trajetória é com ele. Subir no altar segurando a mão do futuro marido e olhar nos olhos de um padre sorridente. E quando do momento das alianças, Verônica quer pronunciar as palavras com uma voz de leveza, quer ouvir a voz de veludo do Antônio em declarações de amor, fidelidade e companheirismo eterno.

“Agora o noivo pode beijar a noiva!, Diria o padre” – dizia-me Verônica, às 15h53, quarta-feira, Hospital Erasto Gaertner, Curitiba, estado do Paraná, ao mesmo tempo em que subia lentamente as escadas divinas, para se juntar em um altar com Deus.

Nem sinal do Antônio.