Bispo Filho: “A Literatura é o Lugar no qual as Pessoas Podem se Encontrar e se Reencontrar”

por Dilvo Rodrigues

Foi numa tarde de julho que eu me peguei atravessando a ponte do São Raimundo em direção à casa do poeta, escritor e professor Bispo Filho. Da ponte dava para ver o Rio Doce com águas baixas, correndo preguiçosamente entre as pedras, que já se destacavam. Mas a paisagem não deixava de ter sua beleza. Esse cenário influenciou e influencia a vida de Bispo desde que se entende por gente. O autor do livro “Meninos do São Raimundo” (em parceira com o cronista Roberto Lima), que já foi visto sob os olhares de Chico Buarque e Caetano Veloso e lançado em países como Portugal, Espanha e Estados Unidos, recebeu o Meras Crônicas para um bate-papo sobre literatura e poesia.

Meras Crônicas – O começo da sua história com a poesia está muito ligada ao lugar onde você mora, ao bairro onde você cresceu. Como foi esse começo e de quais maneiras a região do São Raimundo influenciou seu olhar para poesia?

Bispo Filho – Eu sempre fui uma criança muito tímida e solitária, tenho uma solidão desde que eu me entendo por gente. Aqui em casa sempre foi uma casa de músicos. Meu avô era maestro e tinha aqui praticamente uma banda completa. Nós brincávamos muito com música e com os instrumentos musicais. Acredito que foi daí que surgiu meu interesse pela arte. Depois, no primário, a minha avó, Dona Hercília, que talvez tenha sido a primeira educadora dessa parte de cá do Rio Doce, me ensinou a ler com quatro anos. Assim que aprendi a ler, veio o contato com os livros de poesia do Manuel Bandeira, da Cecília Meirelles que tínhamos também, dentro de casa. Ela promovia o que na época era conhecido como Auditório, que nada mais era um recital de poesias feito por alunos. Então, desde muito criança desenvolvi esse gosto por poesia. Algumas eu sabia de cor. Além disso, tive contato com teatro também.
Aos dez anos, um amigo do bairro me chegou e disse: “Vamos escrever poesia?” Eu disse: “Ah, mas deve ser muito difícil.” Aí ele falou que não era difícil porque tinha um homem que escreveu “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” e todo mundo gostava. Então, eu comecei a escrever poesia com essa inocência, escrevia um texto desabafo, aquela poesia derramada. Era a fase da adolescência. Quando eu completei 17 anos, tinha um outro menino, o Roberto Lima, que também era do bairro. Ele já escrevia, tinha ido para Juiz de Fora e entrou em contato com um grupo de pessoas que publicava uma revista de muita qualidade chamada The Lira. Eram jovens entre 18 e 20 anos. O Roberto então se envolveu com esse grupo. Quando veio em Valadares, me chamou para publicar um livro em Juiz de Fora, porque lá tinha mais recursos. Então, aos 17 anos publiquei meu primeiro livro de poesias, o Colosso Ciclone. Eu tinha feito uma música e tinha colocado essa letra, O Roberto gostava dessa canção. Assim, resolvemos colocar esse nome no primeiro livro. Então essas interações influenciaram muito o meu olhar para a poesia. E também a própria paisagem, o Rio Doce passando no fundo de casa, o canoeiro andando pra lá e pra cá, a Ibituruna.

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Música Autoral Vs. Mais do Mesmo

por Dilvo Rodrigues

Não falta música em Governador Valadares e as opções são variadas. Na mesma noite, você pode frequentar um barzinho reconhecido pelas apresentações de duplas sertanejas e, mais tarde, pode ir para um pub ouvir rock clássico ou heavy metal. O ponto em comum entre a maiorias desses locais, ainda que não seja uma semelhança proposital, é que quase na totalidade deles é bem difícil encontrar som autoral, isto é, artistas que tocam suas próprias músicas. O Meras Crônicas conversou sobre isso com pessoas do cenário da música local. Respectivamente, Dilpho Castro, líder da banda Silent Cry; Marcos Aranha, cantor, compositor e vocalista da Dr. Jiwaggo; Peterson Camargos, guitarrista da Banda Ox e parceiro musical da cantora Tamy Braga e Clério Teixeira (Mais conhecido como Clerin), produtor musical e músico.
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Jaider Batista: “É Preciso Aprender a Conviver.”

por Dilvo Rodrigues

A primeira vez que conversei com Jaider Batista foi durante a minha primeira graduação, em jornalismo. O ano deveria ser 2008 ou 2009. Depois da palestra dele, naquele dia, fiquei com uma frase na cabeça que ele repetia constantemente na fala: “É preciso aprender a aprender!”. Em Janeiro, Jaider, que é Secretário de Educação de Governador Valadares, professor e jornalista, aceitou receber o Meras Cronicas para uma entrevista despretensiosa sobre internet, jornalismo, comunicação e política.

Meras Crônicas – Você escreveu uma série de crônicas a respeito da sua última viagem a Angola. E o que me chamou atenção foi a dificuldade e a engenhosidade necessária para se conseguir uma conexão de internet por lá. O que você acha que vai acontecer mais rápido: A internet banda larga chegar a Angola com força total ou o jornalista brasileiro ser mais valorizado?

Jaider – Acho que o caminho da internet é chegar a qualquer canto, não tem mais condição dela não chegar. As pessoas buscam janela de conexão com o mundo. Se os governos não dão conta disso, os indivíduos vão buscando por si. Eu saí daqui [do Brasil] com um celular simples, apenas para ter a agenda de endereços, por que eu não cuidei da possibilidade de usar telefone daqui lá em Angola. Quando eu cheguei, o meu “motorolazinho” estava em tudo quanto é canto. Os laranjinhas, como são chamados por lá, estavam a três dólares americanos. Ou seja, essa popularização dos aparelhos celulares em toda África, a preços bem baixos, é uma massificação que se dá na perspectiva do uso de Internet. E já há outras maneiras de conseguir uma conexão com a rede. Por exemplo, em alguns lugares da Amazônia brasileira, eu tive dificuldade para conseguir uma boa conexão dentro do hotel. No meio da floresta, em uma aldeia, já conseguia um sinal através da internet por satélite. Então, há maneiras de se conectar que não passam pelas operadoras ou governos, como é convencionado hoje.

Em Angola, estive em uma midiateca do governo. Todas as mídias digitais estão ali, concentradas nesse espaço. Eles estão construindo várias unidades em todo paí. Essa é uma maneira de, primeiramente, aproximar as pessoas com bons níveis de educação ao uso da internet e das mídias digitais. É claro que você tem um aparato de país de primeiro mundo na midiateca, enquanto do outro lado da rua não tem um sinal se quer. Hoje Angola é um dos países que mais crescem economicamente no mundo, então há a possibilidade de eu chegar lá no ano que vem e o quadro ser bastante diferente.

Agora, sobre os jornalistas, eu penso que eles não são valorizados em Valadares. Em muitos lugares, eles o são. A usura e a obtusidade dos donos de jornais estrangula qualquer possibilidade de reconhecimento do valor do jornalismo. Até por que eles não querem fazer jornalismo, eles querem empregados servis que reproduzem releases e garantam que o jornal esteja no forno para sair no dia seguinte. Não interessam em manter quadros e desenvolver profissionais, reter gente inteligente nas redações. Eles sabem que podem dispensar, já que haverá outros. Nós precisamos constituir outra rede de comunicação em Valadares e, ao invés de as pessoas formadas ficarem esperando aparecer um patrão iluminado e com a compreensão adequada do valor do jornalismo para a democracia, que elas se juntem e disputem o mercado.

Nós poderíamos ter cooperativas de jornalistas, de doze ou dez profissionais capazes de colocar um jornal na rua. Por que só programa de buraco de rua e de crimes é que consegue espaço na nossa televisão local? Acho que nós falhamos na formação do jornalista, falhamos na capacidade de formar pessoas capazes de gerar seu próprio emprego. Temos um monte de gente com diploma na mão, mas que está perdendo a capacidade de fazer jornalismo. Isso por que as empresas são ruins, os empregadores são péssimos, mas que também não conseguem fazer por conta própria, não são capazes de chegar e dizer: “Eu não preciso me submeter a esse patrão ou a essa empresa. Vou fazer meu emprego. Vou disputar o espaço, comprar um horário na TV e fazer um programa interessante.”. É improvável que a população tenha gosto pelos péssimos programas livres de TV que nós temos por aqui. O mais provável é que a população não conheça outra alternativa devido à preguiça dos jornalistas, que não estão oferecendo algo diferente.

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