Quarentenado – Toque de Recolher

por Dilvo Rodrigues

A TV mostra o presidente da república comemorando seu aniversário de 66 anos, junto com apoiadores, umas centenas de pessoas. Muitas delas vestidas de verde amarelo, empunhavam a bandeira do Brasil, expressando seu sentimento patriótico personalista, o que para mim é um tremendo de um paradoxo. Nesse mesmo dia, um domingo de março, é aniversário do seu Carlos, 59 anos. O seu Carlos tem 3 netos, um único filho. Mas, nem sinal deles por aqui. Ele não sabe mexer com tecnologia. Ainda mantem um telefone de linha no apartamento, com um campainha estridente. Estou preocupado com seu Carlos.

Enquanto isso, a TV continua mostrando o presidente da república do Brasil discursando frente a turba. Ele dizendo que nunca abandonará o povo brasileiro, que estão nos impedindo de exercer nosso direito constitucional de ir e vir, que isso, que aquilo. E eu fico pensando que não se fazem mais aniversariantes como antes. Aniversariantes que reclamam mesmo é do copo vazio, ou que o bolo está muito doce. Aniversariantes que perguntam: “Por que o fulano de tal não veio?”, que o tamanho do presente não é compatível com o envergadura da pança. No lugar do presidente, reclamaria da quantidade de pessoas no meu aniversário. Eu iria mandar todo mundo embora com suas respectivas máscaras para as suas respectivas casas. No meu aniversário não pode ter mais de 20 pessoas. É Proibido qualquer formalidade, é proibido glacê. Mas, e o seu Carlos!?

Nenhum sinal de ninguém. O telefone dele não tocou. Então decido vestir uma bermuda e uma camiseta velha, duas máscaras na cara. Penso em ir lá falar com ele. No mínimo, falar um “Oi, seu Carlos! Fiz um bolinho para o Senhor. Sei que hoje é seu aniversário. Espero que seja um ciclo de muitas felicidades, muita saúde e harmonia na sua vida.”. Sei que isso tudo me induziria a terminar com um forte abraço, que seria substituído no máximo por um toque de cotovelos ou soquinho de mãos. Declino a ida. E se eu estiver contaminado? Não quero colocar ninguém em risco aqui, pensei. Voltei para a TV.

A repórter diz que o presidente usou a máscara até certo tempo. Quando o sujeito foi proferir o discurso, retirou a proteção. De repente, escuto o som de passos, muitos passos, de várias pessoas no corredor do prédio. Poderia ser a turma do presidente voltando para casa, mas não moro em Brasília. Felizmente! “Deve ser o Sr. Carlos com família toda.”, pensei. Mas, uma hora dessas? Vai ver, vão passar a noite comemorando. Afinal de contas, não é todo dia que se faz 59 anos, perto dos netos, do filho e da nora. Então fiquei de esperar um pouco e ir mais tarde bater na porta dele. Esperei!

Decido abrir o celular. Vejo a foto de um rapaz jovem e forte. Com óculos e touca de natação. Não deve ter mais de 40 anos. Começo a ler o texto e descubro que ele era um triatleta, havia disputado algumas vezes o Iron Man. Muito amigos falando dele com admiração, respeito e carinho. Foram 10 dias de UTI. Fiquei pensando que se um cara desses morre assim, quem sou frente a força implacável da natureza? A possibilidade da finitude me faz levantar. Vou até a geladeira e pego o singelo bolo do seu Carlos.

Então, decido ir bater lá. Duas máscaras na cara. Chego na porta do seu Carlos, tentando me recompor da história do triatleta. Mas, também ainda meio reticente sobre os riscos. Quando vejo, na porta tinha um bilhete com o meu nome. Abri. “Dilvo, sabia que você viria, amigo! Mas, não estou em casa hoje. Meu filho acabou me convencendo a passa o dia com ele, a Sol e meus netos. Não voltarei hoje. Bosta de toque de recolher, hein!? Mas pode abrir a porta e deixar o bolo aí na cozinha, viu!?”

Peguei papel e caneta, escrevi no verso do bilhete: “Passe álcool antes de abrir, véio!”

Ali, considerei entregue os votos de felicidade pelos 59 anos do meu vizinho.

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