Quarentenado – A Gata

por Dilvo Rodrigues

A gata está sentada na janela da sala. São 5 horas da manhã, e me pergunto por que motivo acordar tão cedo. No meu caso, é insônia. Já a gata deve ter suas dúvidas. Dá vontade de acender um cigarro. Mas eu não fumo, não mais. A gata parece curiosa. Começa a caminhar de um lado para o outro na janela. Querendo algo que está além do alcance dela. Já eu não tenho um máscara limpa se quer para usar hoje. Mas, não tenho saído de casa. Trabalho em casa. Não vejo ninguém que está para além do quadro da janela da sala. A mesma janela agora dominada pela gata, que de repente sossega o facho e se lambe como se fosse mesmo uma delícia. Talvez seja! Vou é fazer um café!

Água para ferver. Tenho uma xícara especial para tomar café, quando acordo às 5 da matina. Ela é xadrez vermelho e preto, com algumas listras meio amareladas. Encontrei no mercadinho da esquina, por 10 reais. Comprei na hora, achando que era um sinal de Deus. “Compre, meu filho. Um xícara xadrez com um café quentinho dentro vai ser aconchegante, às 5 da matina!”, dizia a voz dentro de mim. Acho mesmo que era Deus. Essas coisas simples assim só podem ser de Deus.

Então, passo uma água na térmica. Coador verde limão, filtro de papel, duas colheres de extraforte. Quando a água começa a borbulhar é a hora. Um barista certa vez me disse que esse é ponto certo da água. Depois disso, ela queima o café. Mas o café já não é queimado?, perguntei. Não, o café é torrado. E ele não precisa passar por qualquer outra tortura. A água quente serve só para acordar, não para assustar o café. Mas, acordar com água quente!?, perguntei. Sim, disse o sujeito. “Çei!”

Voltei a sala com a xícara de café na mão. A gata estava lá parada com a cabeça sobre a pata. Acredito que havia se cansado, após o banho de saliva. Encostei o queixo na parapeito da janela, com os braços para fora, a xícara na mão esquerda. Na rua, nada. Só o barulho do vento sussurrando nas bordas e janelas do condomínio, feito fantasma da meia noite. Penso em ligar a TV, acompanhar as notícias, as mesmas que estão há tanto tempo no ar e chegam a tirar nosso folego. Melhor não!

Ligo o celular. Não há uma mensagem se quer. Gostaria de ir nadar, mas tudo está fechado. Minha ex namorada mudou a foto de perfil no Instagram. O namorado dela fez uma serenata, cantando “Como eu quero!”, do Leoni. Ele não sabe a diferença de um fá maior, para um fá maior com sétima. Chego a conclusão de que estou perdendo meu tempo, preciso voltar a dormir. “Como eu Quero! Puta que o pariu. Tinha outra música não?”, penso logo antes de encostar minha cabeça no travesseiro novamente.

Daí a pouco, um barulho na maçaneta da porta do quarto. Não dei valor. Já estava sonolento, talvez fosse apenas um daqueles sonhos da primeira fase do sono que fazem a gente acordar um tanto assustado. Entretanto, ouço o barulho mais umas duas ou três vezes. Nunca havia acontecido! Abro a porta, e vejo a gata, paradinha ali, miando pra mim. Sem dúvida, ela queria entrar no meu quarto, dormir por aqui, bagunçar minha cama e encher minha vida de pelos. Era isso, ou som de pulos na maçaneta. Deixei entrar.

A gata rapidamente subiu na minha escrivaninha, driblou meu computador. Deu uma conferida na caneca de café que encostei perto da minha papelada de anotações. Depois, circulou entre meus perfumes, meus relógios sem derrubar ou esbarrar em uma coisa se quer. Deu uma boa olhada pela janela do quarto, mas não curtiu o parapeito de ferro frio pra dedéu. Compreensível! Fechei a janela, já iria clarear.

Então foi aí que a danada percebeu minha duas prateleiras de livros, armadas nas paredes do quarto. Foi dito e feito! Pulou lá e se aconchegou entre a “A Ditadura Envergonhada”, do Elio Gaspari e “O Futuro Chegou”, do Domenico de Masi. Lá do alto dos meus livros, parecia estar me cuidando na cama, numa postura de “conquistei mais um território” ou “fique tranquilo, isso aqui é tudo meu”. E eu olhando com um ar de “mais tarde eu xispo ocê daqui, boba!”.

Apaguei a luz. A gata ronronou um pouco e depois dormiu a “noite” toda. E eu? Eu não preguei o olho. Pois é, quem mandou tomar café!

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