Quarentenado – A Sacada de Domingo

por Dilvo Rodrigues

Domingo é daquele jeito. A sacada do prédio é refúgio da preguiça dos entediados. O tédio regrado a cerveja gelada, pouca roupa, cadeira de praia, vento no rosto. Quem não tem uma sacada no domingo, não tem lugar nesse mundo, não tem lugar no domingo.

Eu, por exemplo, não tenho uma. Então, fico indo do quarto à cozinha, reclamando do calor, do suor escorrendo pelo pescoço afora. Abro a geladeira e isso é o mais próximo que consigo chegar de sentir o vento de uma sacada. E me permito sonhar com a companhia de uma bela moça no apartamento com sacada, mas vamos estar mesmo é escornados no sofá. Às vezes, o bom mesmo da sacada é tê-la e escolher não a usá-la. Mas, o sofá. Ah, o sofá!

Deveria ser proibido a construção de prédios sem esse espaço. É uma violência extrema, radicada na estrutura da política habitacional brasileira. Enquanto meu vizinho, do Heritage faz churrasco na sua extensa sacada, com parapeito de vidro blindez de correr, eu, aqui, não tenho mais que uma janela decorada por uma tela proteção. Não consigo colocar nem o pescoço para fora quando o iFood chega com a refeição e dizer: “Já desço!”. Mas isso é pouco.

Será que tendo uma sacada poderia eu ter momentos de profundidade? Sentado ali, olhando o brilho do sol ou o tintilar das estrelas do céu e esperar que alguma delas diga exatamente qual é o meu propósito aqui. Gostaria! Ou, olhando para imensidão da cidade, as luzes que brilham ao longe, poderia me perguntar: “Por que eu?!” Isso sim, seria tudo, ou quase tudo.

Me permito sonhar de novo. Eu vou a cozinha, volto com uma cerveja gelada, uns petiscos. Enquanto isso, ela liga uma música do Caetano Veloso, cantando assim: “De noite na cama eu fico pensando, se você me ama.” Eu caio na real. São 3 horas da tarde, 33 graus. Não tenho sacada, nem ninguém que me ame. De noite na cama, vai ser um suador daqueles, por que eu também não tenho ar condicionado.

Eu tenho reparado. Nessa pandemia, as pessoas estão utilizando a sacada mais do que antes. Tem gente tomando café demorado, meio que esperando o amanhã chegar e tudo voltar a ser como era antes. Mas, o café esfria rapidamente, pois o vento na sacada pode ter algumas desvantagens. São outras notícias que nos chegam agora. É outra maneira de entender, viver, levar e sobreviver à vida. Quem tem sacada já deve ter entendido o recado do destino. A boa nova adentra com mais facilidade nas amplas portas de acesso. Por aqui, tenho medo de estar perdendo o fio da meada, com essa janela meia boca.

O que me conforta é que, vez ou outra, mesmo da minha pequena janela, ouço uma bela voz afinar algumas canções com o vento. A melodia vai por aí, até onde há alguém que consiga ouvir e, nesse momento, não se sentir tão sozinho. A sacada, sem dúvida, é o lugar onde nesse domingo, todos nós poderíamos nos reunir. Onde eu poderia ver você, onde você olharia para mim. Entretanto, a distância é tão grande. E isso me faz perceber que, na verdade, todas as sacadas estão mesmo é vazias. Para quê então ter sacadas?

Quarentenado – Toque de Recolher

por Dilvo Rodrigues

A TV mostra o presidente da república comemorando seu aniversário de 66 anos, junto com apoiadores, umas centenas de pessoas. Muitas delas vestidas de verde amarelo, empunhavam a bandeira do Brasil, expressando seu sentimento patriótico personalista, o que para mim é um tremendo de um paradoxo. Nesse mesmo dia, um domingo de março, é aniversário do seu Carlos, 59 anos. O seu Carlos tem 3 netos, um único filho. Mas, nem sinal deles por aqui. Ele não sabe mexer com tecnologia. Ainda mantem um telefone de linha no apartamento, com um campainha estridente. Estou preocupado com seu Carlos.

Enquanto isso, a TV continua mostrando o presidente da república do Brasil discursando frente a turba. Ele dizendo que nunca abandonará o povo brasileiro, que estão nos impedindo de exercer nosso direito constitucional de ir e vir, que isso, que aquilo. E eu fico pensando que não se fazem mais aniversariantes como antes. Aniversariantes que reclamam mesmo é do copo vazio, ou que o bolo está muito doce. Aniversariantes que perguntam: “Por que o fulano de tal não veio?”, que o tamanho do presente não é compatível com o envergadura da pança. No lugar do presidente, reclamaria da quantidade de pessoas no meu aniversário. Eu iria mandar todo mundo embora com suas respectivas máscaras para as suas respectivas casas. No meu aniversário não pode ter mais de 20 pessoas. É Proibido qualquer formalidade, é proibido glacê. Mas, e o seu Carlos!?

Nenhum sinal de ninguém. O telefone dele não tocou. Então decido vestir uma bermuda e uma camiseta velha, duas máscaras na cara. Penso em ir lá falar com ele. No mínimo, falar um “Oi, seu Carlos! Fiz um bolinho para o Senhor. Sei que hoje é seu aniversário. Espero que seja um ciclo de muitas felicidades, muita saúde e harmonia na sua vida.”. Sei que isso tudo me induziria a terminar com um forte abraço, que seria substituído no máximo por um toque de cotovelos ou soquinho de mãos. Declino a ida. E se eu estiver contaminado? Não quero colocar ninguém em risco aqui, pensei. Voltei para a TV.

A repórter diz que o presidente usou a máscara até certo tempo. Quando o sujeito foi proferir o discurso, retirou a proteção. De repente, escuto o som de passos, muitos passos, de várias pessoas no corredor do prédio. Poderia ser a turma do presidente voltando para casa, mas não moro em Brasília. Felizmente! “Deve ser o Sr. Carlos com família toda.”, pensei. Mas, uma hora dessas? Vai ver, vão passar a noite comemorando. Afinal de contas, não é todo dia que se faz 59 anos, perto dos netos, do filho e da nora. Então fiquei de esperar um pouco e ir mais tarde bater na porta dele. Esperei!

Decido abrir o celular. Vejo a foto de um rapaz jovem e forte. Com óculos e touca de natação. Não deve ter mais de 40 anos. Começo a ler o texto e descubro que ele era um triatleta, havia disputado algumas vezes o Iron Man. Muito amigos falando dele com admiração, respeito e carinho. Foram 10 dias de UTI. Fiquei pensando que se um cara desses morre assim, quem sou frente a força implacável da natureza? A possibilidade da finitude me faz levantar. Vou até a geladeira e pego o singelo bolo do seu Carlos.

Então, decido ir bater lá. Duas máscaras na cara. Chego na porta do seu Carlos, tentando me recompor da história do triatleta. Mas, também ainda meio reticente sobre os riscos. Quando vejo, na porta tinha um bilhete com o meu nome. Abri. “Dilvo, sabia que você viria, amigo! Mas, não estou em casa hoje. Meu filho acabou me convencendo a passa o dia com ele, a Sol e meus netos. Não voltarei hoje. Bosta de toque de recolher, hein!? Mas pode abrir a porta e deixar o bolo aí na cozinha, viu!?”

Peguei papel e caneta, escrevi no verso do bilhete: “Passe álcool antes de abrir, véio!”

Ali, considerei entregue os votos de felicidade pelos 59 anos do meu vizinho.

Quarentenado – A Gata

por Dilvo Rodrigues

A gata está sentada na janela da sala. São 5 horas da manhã, e me pergunto por que motivo acordar tão cedo. No meu caso, é insônia. Já a gata deve ter suas dúvidas. Dá vontade de acender um cigarro. Mas eu não fumo, não mais. A gata parece curiosa. Começa a caminhar de um lado para o outro na janela. Querendo algo que está além do alcance dela. Já eu não tenho um máscara limpa se quer para usar hoje. Mas, não tenho saído de casa. Trabalho em casa. Não vejo ninguém que está para além do quadro da janela da sala. A mesma janela agora dominada pela gata, que de repente sossega o facho e se lambe como se fosse mesmo uma delícia. Talvez seja! Vou é fazer um café!

Água para ferver. Tenho uma xícara especial para tomar café, quando acordo às 5 da matina. Ela é xadrez vermelho e preto, com algumas listras meio amareladas. Encontrei no mercadinho da esquina, por 10 reais. Comprei na hora, achando que era um sinal de Deus. “Compre, meu filho. Um xícara xadrez com um café quentinho dentro vai ser aconchegante, às 5 da matina!”, dizia a voz dentro de mim. Acho mesmo que era Deus. Essas coisas simples assim só podem ser de Deus.

Então, passo uma água na térmica. Coador verde limão, filtro de papel, duas colheres de extraforte. Quando a água começa a borbulhar é a hora. Um barista certa vez me disse que esse é ponto certo da água. Depois disso, ela queima o café. Mas o café já não é queimado?, perguntei. Não, o café é torrado. E ele não precisa passar por qualquer outra tortura. A água quente serve só para acordar, não para assustar o café. Mas, acordar com água quente!?, perguntei. Sim, disse o sujeito. “Çei!”

Voltei a sala com a xícara de café na mão. A gata estava lá parada com a cabeça sobre a pata. Acredito que havia se cansado, após o banho de saliva. Encostei o queixo na parapeito da janela, com os braços para fora, a xícara na mão esquerda. Na rua, nada. Só o barulho do vento sussurrando nas bordas e janelas do condomínio, feito fantasma da meia noite. Penso em ligar a TV, acompanhar as notícias, as mesmas que estão há tanto tempo no ar e chegam a tirar nosso folego. Melhor não!

Ligo o celular. Não há uma mensagem se quer. Gostaria de ir nadar, mas tudo está fechado. Minha ex namorada mudou a foto de perfil no Instagram. O namorado dela fez uma serenata, cantando “Como eu quero!”, do Leoni. Ele não sabe a diferença de um fá maior, para um fá maior com sétima. Chego a conclusão de que estou perdendo meu tempo, preciso voltar a dormir. “Como eu Quero! Puta que o pariu. Tinha outra música não?”, penso logo antes de encostar minha cabeça no travesseiro novamente.

Daí a pouco, um barulho na maçaneta da porta do quarto. Não dei valor. Já estava sonolento, talvez fosse apenas um daqueles sonhos da primeira fase do sono que fazem a gente acordar um tanto assustado. Entretanto, ouço o barulho mais umas duas ou três vezes. Nunca havia acontecido! Abro a porta, e vejo a gata, paradinha ali, miando pra mim. Sem dúvida, ela queria entrar no meu quarto, dormir por aqui, bagunçar minha cama e encher minha vida de pelos. Era isso, ou som de pulos na maçaneta. Deixei entrar.

A gata rapidamente subiu na minha escrivaninha, driblou meu computador. Deu uma conferida na caneca de café que encostei perto da minha papelada de anotações. Depois, circulou entre meus perfumes, meus relógios sem derrubar ou esbarrar em uma coisa se quer. Deu uma boa olhada pela janela do quarto, mas não curtiu o parapeito de ferro frio pra dedéu. Compreensível! Fechei a janela, já iria clarear.

Então foi aí que a danada percebeu minha duas prateleiras de livros, armadas nas paredes do quarto. Foi dito e feito! Pulou lá e se aconchegou entre a “A Ditadura Envergonhada”, do Elio Gaspari e “O Futuro Chegou”, do Domenico de Masi. Lá do alto dos meus livros, parecia estar me cuidando na cama, numa postura de “conquistei mais um território” ou “fique tranquilo, isso aqui é tudo meu”. E eu olhando com um ar de “mais tarde eu xispo ocê daqui, boba!”.

Apaguei a luz. A gata ronronou um pouco e depois dormiu a “noite” toda. E eu? Eu não preguei o olho. Pois é, quem mandou tomar café!