O Chão é Inevitável

Na maior parte da semana vou para ao trabalho de bike. É um pedal de uns 6 km, com trechos urbanos e uma grande parte percorrida numa BR, sem acostamento. Então, é melhor ir equipado. Capacete, luzes de posição (caso volte a noite) e uma parafernália de materiais para serem utilizados, caso o pneu fure ou alguma peça quebre ou dê defeito. Mas, em relação a bike, na verdade, se for dia de você ficar na mão no meio do nada, você vai ficar. É bom ir preparado.

Muito gente diz que que o ciclista é maluco, ou corajoso, “olha como ele é fitness” ou coisa que o valha. Na sinceridade? Não tem lugar onde ele se sinta mais vivo do que em cima da bike, na BR tomando chuvarada e lama na cara, movendo a corrente mesmo quando as pernas não querem mais. A vida é quase toda na estrada, tentando achar um lugar onde se encaixar . Então, é uma situação simbólica, metafórica da qual não se pode abrir mão. Além disso, é algo que não nos deixa esquecer de onde viemos, o que se quer. E essa é outra coisa da qual não se deve abrir mão. Esse lugar, o trajeto, a jornada, faz pensar se é o meio ou o fim que importa. Quando chegar o fim, se chegar, é dever informar a todos os outros viajantes de tais significados. Ainda que se saiba que dentro de cada viajante há um destino próprio.

Estar na estrada todo dia é como estar na vida. Qualquer coisa pode acontecer. Posso ser atropelado por uma carreta a qualquer momento, mas posso percorrer mais um trecho e estar onde quero estar, fazendo o que gosto, com quem gosto. Aceito o risco das duas possibilidades e isso também é a vida. Meio a meio! Não há medo do trajeto. É presente o medo de um dia não poder mais percorrer todos esses quilômetros, metro a metro. Existe o medo de percorrer cada centímetro e o lugar nunca chegar ou perceber que todos os giros rodados simplesmente conduzam a algo que não exista, ou que existe totalmente fora do almejado. Ou seja, chegar onde não se quer.

Quando passam tirando uma fina, o frio na espinha é espontâneo e sempre, automaticamente, levanto o braço, vibro e solto:” uhull, faz de novo!” Mas, seu moço, melhor num fazer, não – penso logo depois. A guria de 20 anos tira uma fina do guidão e te joga no chão. No cruzamento, o senhor não te vê, arranca o carro e…chão! Um desconhecido qualquer, arranca o carro, passa duas vezes em cima de você, empena suas rodas, entorta as canetas. Daí você levanta e, com as ferramentas disponíveis, coloca a bike para rodar do jeito que for possível. Começa de novo, da marcha mais leve para a pesada. O chão é inevitável. O asfalto machuca mais que a terra. O cascalho rasga mais a pele que o capim. Se jogue no chão se o destino lhe apontar um possível encontro com arame farpado, evite a estrada em dia de descargas elétricas. O capacete é seu único amigo.

Uso ombro como referencial para quem se aproxima de mim. Então, se o bitrem estiver muito pra dentro do ombro, melhor jogar a bike na vala, no mato, no barranco, no cascalho. Mas se não tiver como, então o jeito é arriscar a topada. Sem dúvida não vai ser bonito. Mas talvez seja menos doloroso que mordida na canela, menos frio que rajadas de vento, menos solitário que a distância da chegada. Se a carreta passa sem nos atingir, resta aproveitar o vento e aumentar a velocidade. O chão nos leva mais a frente, o coração dispara, a respiração ofegante, a gente se anima e se sente mais próximo da chegada. Entretanto, é bom estar preparado.