Esses Sonhos Imensos

por Dilvo Rodrigues

A senhora tinha sotaque mineiro, desses de gente que mora perto da capital. Nunca havia visto. Chegou sorrindo. Tinha um ar religioso, ao mesmo tempo, uma postura de mulher conhecedora das coisas terrenas. Eu chegava a duvidar. Ultimamente tenho duvidado dessas mulheres que sabem de tudo. Dos homens, tenho certeza, sabem nada.

– Quem é? – perguntei.
– Adélia.
– Adélia quem?
– Adélia Prado.

Ela entrou, se sentou. Ela deve ter olhado para todo mundo e cada um de todo mundo só olhou para ela. Inclusive, eu.

– Senhoras e senhores, temos a honra de receber no nosso Sarau a grande poeta Adélia Prado. – disse o locutor com voz de anunciação.

O sujeito passou o microfone. Ela abriu um folheto qualquer nas mãos e iniciou a leitura em voz baixa. Alguém gritou “Mais alto, Mais alto!”. A poeta olhou para o céu, pediu desculpas, virou a página do folheto e voltou a ler.

– Um grande homem precisa ter um coração, um coração que se apresse apenas em conquistar sonhos singelos. E os pequenos homens? Ah, esses são sonhos imensos.

Continuei sonhando.

 

4 comentários sobre “Esses Sonhos Imensos

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