Nas Linhas das Minhas Mãos

por Dilvo Rodrigues

Minhas mãos estão ficando velhas. Elas começam a tremer ao segurar qualquer objeto um pouco mais pesado, uma bebida por exemplo. A mão chacoalha, depois o antebraço também, o cotovelo fica querendo descansar sobre a mesa e eu me perguntando se alguém notou o quanto elas tremeram, durante meu generoso ato de servir um café. Não comento nada, disfarço um fingimento de nervosismo ou ansiedade. Minhas mãos estão ficando velhas por mais das centenas de linhas e enrugamentos da pele que não existiam antes. Mas agora se fazem presente. Às vezes, chego a pensar se tratar das mãos de outra pessoa, menos as minhas.

Em um das palmas, um linha que começa quase no pulso. Ela corta a parte central da mão esquerda, antes de cruzar a linha da cabeça, fica dupla e chega à linha do coração toda desorganizada. Mas, depois dela, continua num único feixo, seguindo até a base do dedo anular. Na base da mão, ela é mais sulcada, profunda e extensa. E ontem mesmo percebi, ela não tem correspondente na mão direita. A medida que sobe, vai se tornando delgada e rasa. Não me lembro de ter reparado que a linha do coração também fosse tão profunda. Parece ter sido talhada na minha mão por algum escultor pouco consciente da medida de sua força. Se isso mesmo aconteceu, pelo menos foi indolor. Nas falanges dos dedos, a pele enrugou tanto que por um simples esforço de imaginação, começam a lembrar velhas cascas de árvores longevas. E, tudo isso é culpa da falta do estímulo para o uso de hidratantes ou cuidados com a tez, aliados a generosas adições de passagem do tempo. Sem dúvida!

Aquelas mesmas mãos pequeninas que mal conseguiam comportar água suficiente para enxaguar a boca, precisavam da ajuda de mãos maternas, todos os dias, durante um bom tempo, para a simples tarefa de escovar os dentes. Acredito que uma ou outra linha das mãos de minha mãe devem contar essa história, algum riscado entre a linha da cabeça e a linha do coração. Nas de meu pai, de quando ele descascava aquelas suculentas laranjas, naquelas noites, na sala, frente a TV. Sorte das pessoas as quais o tempo escupiu no corpo as belas e pequenas coisas da vida. Às vezes penso que minhas mãos tem ficado mais parecidas com as de minha mãe. Noutras, parecem as de meu pai. Exceto por uma dezena ou duas de linhas que somente eu tenho ou somente cada um deles tenha. Difícil dizer.

Minhas mãos estão ficando velhas e fracas. Agora tenho dificuldade para segurar uma simples caneta, tenho dificuldades para lembrar de como elas eram antes. E de chegar a pensar que tudo está escrito ali, nelas. Basta saber ler. No dia em que eu partir desse lugar para um outro, minha história então estará repousada sobre meu peito. Um livro talvez um pouco pesado e decifrável de alguém que não teve medo de escrever a própria história, mas que gostaria de ter feito leves alterações no curso de alguns capítulos. Me conformo. Certas linhas saem do controle, enquanto outras surgem sem se pronunciar, atropelando algumas outrora estabelecidas.  Minhas mãos estão ficando velhas, tenho sorte. Elas ainda são minhas.

4 comentários sobre “Nas Linhas das Minhas Mãos

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