Mil Lápis e uma Vida

por Dilvo Rodrigues

Em uma de suas viagens internacionais, a professora Flávia Auler foi à Israel. Por lá, conheceu a “Via Dolorosa”, em Jerusalém, viu o “Mar Morto” de perto e, na cidade de Eliat, deu de cara com as margens azuis do “Mar Vermelho”. Uma viagem e tanto. Voltando ao Brasil, ao por os pés no aeroporto de Guarulhos, recebeu uma das notícias mais desagradáveis da cartilha de coisas desagradáveis para um viajante ou turista profissional: Teve a mala extraviada. No decorrer daqueles quinze dias de espera, as preocupações não giravam em torno dos cremes feitos com substâncias do Mar Morto, maquiagens e roupas adquiridas durante o passeio. O que tirava o sono da nutricionista eram os quase 50 lápis que iriam se juntar aos outros 800 de sua coleção. Hoje já devem ser quase mil deles.

No começo, os lápis nem tinham tanto lugar de destaque na vida dessa professora e viajante profissional assumida. No regresso, presenteava as pessoas mais queridas com modelos estilizados de acordo com o destino, principalmente recolhidos em visitas a Museus. A paixão por esses objetos só veio a tona em meados de 2007. Mas a possibilidade sempre esteve lá, desde que o pai dela ganhara um exemplar de 1957, postado via correio, com plástico bolha e tudo. Agora, é ela que tem aumentado boa parte da coleção com doações ou, mesmos, com presentes carinhosos de alunos ou colegas de trabalho. Sabe aquelas camisetas “Fui a Conchichina e lembrei de você!”? Pois é, para Flávia vale mais um lápis.

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Se engana também quem pensa que todo lápis é igual. Pode ser que uns tenham mais qualidade, alguns são mais fáceis de apontar, outros mais especiais. Durante a época da escola, os meus tinham ponta nas duas extremidades. Eles não tinham cabeça. Eu tive dezenas deles e nunca liguei para o fato de que eu poderia guardar todos para posteridade. Na época, a gente colecionava figurinha de álbum de futebol, moeda, cartão telefônico. Na verdade, a gente não sabe da importância que eles tem na nossas vidas e na história. Imagine só, quantos projetos de vida começaram na ponta de um lápis, quantos avanços da ciência, quantas poesias e romances. Sendo possível que se você errar uma vírgula ali, uma fórmula aqui ou uma rima, dá para lançar mão da borracha e tentar contrariar o saudoso Millor Fernandes em “Viver é desenhar sem borracha.”.

Nas proximidades do décimo ano da “carreira” de colecionadora, Flávia prefere pensar mais no futuro e no legado de relações de carinho e consideração, além da sua própria história que cada lápis pode contar. Sendo capaz de passar um pedacinho de cada sonho, de cada viagem, e das descobertas tanto dela mesma, como das pessoas que estiveram em volta daquele certo objeto. Uma espécie de álbum de fotografias. Pensei nisso logo quando terminei minha conversa com ela, no campus da PUC, em Curitiba. Era um dia esquisito, chovia e logo quando saía, começou uma chuva muito forte, o céu bem cinza. A Flávia havia me dado um lápis, um dos cartões de visita dela. Eu fiquei olhando aquele céu desabando água, mas imaginando que com ele eu poderia fazer o desenho de um sol amarelo, um castelo, uma gaivota a voar e um avião rosa e grená passeando pelas nuvens.

Na Travessia do Itiberê

por Dilvo Rodrigues

As gotas de chuva escorrem pelas carcaças dos carros, parados às margens do Rio Itiberê, enquanto aguardam a balsa chegar, guiada pelo barco “Virgulino”. Ao fundo, a ponte que liga a Ilha dos Valadares à região continental da cidade de Paranaguá. Em cima da ponte, alguns passam de ombros encolhidos, vestindo capas de chuvas, botas de cano alto, braços cruzados e talvez até reclamando do frio. Outros, arriscam a vida útil de suas sombrinhas ou guarda-chuvas desgastados pelo tempo, frente a intensidade cada vez maior das rajadas de vento. Mais ao fundo, um barco apita. Olho no relógio e tenho certeza, faltam alguns poucos minutos para próxima saída em direção a Ilha do Mel. Mas nós apenas estamos indo ao supermercado.

A balsa vem lá  do outro lado, numa preguiça danada. O “trambolho” vem pela direita, depois assume a esquerda, faz um giro, quando a rampa começa a raspar o solo cinza, pedregoso, encharcado. Nesse momento, sempre lembro daquela voz feminina, nos ônibus de Curitiba, “Aguarde sempre o desembarque”. Depois, os carros dão a partida e, um a um, começam a ocupar o espaço devido. Um sujeito alto desata o nó do convés, recolhe parcialmente a rampa e a travessia começa fluir. O barulho do motor do “Virgulino” mais parece o de uma carreta abarrotada subindo a serra com dificuldade. Outros trabalham na embarcação, vestidos com uma capa azul. As pessoas continuam passando na ponte, atarracadas. Pelo vidro embaçado do carro, vejo o “Maranata I” e “Maranata II”. Um pequeno barco a motor passa barulhento e logo some, lá pelos lados do mangue.

Decido sair do carro, a chuva continua caindo, mas declino a possibilidade de cobrir a cabeça. Vou para o lado da embarcação que dá para a Serra do Mar. A cima dela, o céu aposta numa coloração avermelhada, perdendo um pouco da força a medida que a gente vai olhando mais para cima. Quando chega um ponto em que o azul toma conta, cortando a vez do vermelho, abruptamente. O Verde da serra, uma faixa vermelha no céu e a imensidão azul do firmamento. Eu não sei o por que de a superfície do rio resolver apenas espelhar aquela vermelhidão, talvez para espantar um pouco da escuridão característica daquelas águas do Itiberê, por aquelas bandas. Eram seis horas da tarde, não era um por do sol de tirar o fôlego. Era um dia feio se esforçando para proporcionar momentos bonitos e conseguindo.

A Ilha dos Valadares vai ficando para trás e me lembro de uma história interessante, de uma vez alguém me dizer que os fundadores da ilha são parentes, primos de gente de uma cidade lá do leste de Minas Gerais, Governador Valadares. Não acho que a “história” seja real. Entretanto, falando como valadarense, das Minas Gerais, é bastante plausível. E justificaria a quantidade de bicicletas, a ponte, os rios, a Serra do Mar por aqui, a Ibituruna lá e o danado do calor. Milhares de quilômetros separando lugares que nos remetem ao mesmo sentimento e sensações semelhantes.

Quebrei o pescoço para o lado do “Maranata I”, que além do “Topa tudo – Fanático”, é constante por aquelas águas ali, próximas a ponte. Sinto vontade de pular na água, nadar feito criança, sem preocupação com o perigo, feito os tempos de Rio Doce. No Itiberê, teria oportunidade de subir clandestinamente no barco dos outros, tomar o leme e fingir ser capitão, responsável por uma tripulação numerosa. Ou poderia subir numa canoa qualquer, e no ritmo de cada remada, entoar canções caiçaras, canções que eu nunca aprendi. Além do mais, a água deve está gelada pra burro. Nada que três ou quatro doses de cataia não sejam capazes de resolver. Dizem por aqui que Cataia é o uísque caiçara. Tem gente que toma “estilo cowboy” mesmo, copinho e glup, pra dentro.

Se eu botasse o pescoço um pouco para fora da barca, certamente alguém chamaria minha atenção. Eu deveria me contentar em ver meu rosto refletido nas águas, com fundo vermelho, sendo deformado na frequência dos passar das ondas. Então, chega o momento que uma buzina soa no convés, um convite de retorno ao banco do carona. Eu sento lá, os carros disparam os motores novamente. Cada um se retira do seu devido lugar, para dar lugar a outros, com outras pessoas, que atravessarão o mesmo Itiberê. Mas, que eu duvido, numa tarde de chuva dessas, estejam voltando apenas do supermercado.