Aguenta o Fardo, Com Fé em Deus

por Dilvo Rodrigues

Quando minha mãe disse que eu iria me chamar Rodrigo, não achei bom e nem achei ruim. Na verdade, eu sou do pensamento de que a pessoa deveria escolher seu próprio nome. Eu, se tivesse esse direito, sem dúvida, iria me chamar José. Iria assinar com todo orgulho na identidade: José Rodrigues Batista. Eu não tenho nada contra meu nome atual, que aliás muito respeito esse Dilvo. Nunca tive problema na escola, com coleguinha enchendo a paciência, destilando a zombaria a cerca disso. Se alguém chegasse e falasse que era feio, a resposta tava na ponta da língua: “Esse é meu nome, e você terá de acostumar com isso. Eu já me acostumei.” Vez ou outra, chegava alguém lá em casa, querendo falar com o Dilvo. Era o Dilvo pai ou o Dilvo filho? – perguntavam. Lá em Porto Seguro, quero falar com o Dilvo? É o Dilvão ou o Dilvinho? Pois é, Dilvo não é um nome propriamente meu. Mas José. Se eu me chamasse José, esse nome seria mais do que meu.

E nem é por ser nome bíblico. Apesar de eu admirar por demais a história daquele José. Imagina só sua mulher aparecer grávida do nada, dizendo que o bebê é fruto do querer de Deus, que o Divino Espírito Santo é que foi feitor da obra de luz na barriga dela? Imagina! Quando, então, Deus fala no pé do seu ouvido, dizendo para você ter fé nas palavras da sua escolhida. Sem desconfiança, de peito aberto na crença de uma promessa, você se prontifica a assumir os cuidados do filho de Deus. Eu acho engraçado quando penso que, na prática, José foi padrinho do filho de Deus. Na minha cabeça fantasiosa fico imaginando Deus chegando para José e dizendo: “Olha, queria que você fosse padrinho do meu filho!” E José respondendo: “Sou só um carpinteiro, Senhor.” No fim, acho que ele se convenceria de assumir o papel dele.

Se alguém me convocasse no chamativo de Zé, no intuito de diminuir minha significância no mundo, eu não me aborreceria. Eu sou filho de Zé, sou neto de Zé, bisneto de Zé e sobrinho de Zé. Zé corre nas minhas veias, Zé é meu padrinho, oficialmente registrado e aceito pela instituição do catolicismo. Zé foi meu irmão nas peladas nos campos de terra cidade afora, atual companheiro de porre nos bares da vida. Minto! Pode ser até que eu me aborreceria. Mas somente pela possibilidade daquele que agora me chama de Zé, não tenha a lucidez de se olhar no espelho e cair na real. A real de que quase todo mundo é José nessa vida. Aguenta o fardo, com fé em Deus.

Talvez meu apelido fosse Zeca, parece descompromissado, ou Joca. Não faz jus. Isso por que, às vezes, a gente também é duro. A gente morre, e permanece. Por isso, José é o nome certo. Tem de brincar e tem de sofrer. Mas o que mais perturba e, na essência, o real motivo disso é que há tantos Zé e Josés por aí, é mais fácil eles se reconhecerem, levarem a vida num senso de coletividade, ainda que danosamente. Você encontra um na fila do banco, no protesto contra o governo ou nas palavras de um texto qualquer. Agora, Dilvo? Meu pai mora longe, meu irmão mora mais longe ainda. Então, só há esses outros dois Dilvos que conheço. Onde é que você encontra outro para dividir as coisas da vida, sentir que está no mesmo barco? Num dia de porre, dizer “Essa eu quero virar com meu xará, Dilvo! Chega mais parceiro!”? Nem na sarjeta! Pois é, muitos nomes nos deixam sozinhos no mundo. Melhor é ser Zé, se confundir com a multidão. Entretanto, muito melhor ainda é ser José. Aguenta o fardo, com fé em Deus.

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