Quero um Barquinho de Papel

por Dilvo Rodrigues

Quero ter um barco. Quero um desses barcos que a gente pode guiar rio afora até chegar ao mar. E do mar, chegar ao oceano e ficar perdido até não querer mais. Não entendo nada de barcos, veleiros, escunas, iates. Com quantos paus se faz uma canoa? Não sei. Meus barquinhos de papel é que navegavam bem nos tanques de lavar roupa. No tanque, eu navegava pelo Rio Doce chegando até a foz, no litoral do Espírito Santo. Depois, virava meu barquinho para o sul, no objetivo de chegar até Ushuaia. Em águas argentinas, virava de novo, em direção ao Pacífico. Então, rumava para o norte, em busca de chegar em Valparaíso, no Chile. Não sei ancoraria meu barquinho ali ou se o secaria direitinho e, com todo cuidado, colocaria no bolso novamente. Vai que ele precisasse de uns remendos. Acho, quero um desses, que eu mesmo possa consertar. Um barquinho de papel.

Eu gostaria de navegar sempre em águas difíceis, me tornar um marujo profissional. Saber os nomes das correntes marítimas, dos ventos que agitam o coração, dos ventos que acalmam a alma, dos lugares do mar onde seria bom estar com você ou sozinho e de quantas léguas eu deveria passar dos cemitérios de navios e dos espíritos de piratas traiçoeiros. Talvez não fizesse sentido preocupar tanto com isso, já que meu barquinho de papel estaria a mercê de tubarões, cachalotes e tempestades as mais implacáveis. E aí, se eu tivesse de fazer uma parada forçada em uma ilha deserta, refazer todas as avarias, usar um material mais resistente, tipo papelão? A pena é que não teria mais como guardá-lo no bolso, precisaria andar com meu barquinho debaixo do braço. O que não impediria de fazer uma visita ao topo dos Andes. Iria subir até o cume da montanha mais alta e desceria já navegando no gelo, indo até a beira do mar. Um bom teste para uma mudança de categoria: Navio quebra gelo. Eu o chamaria então de “O Domador de Iceberg”.

Depois, então, sentaria na proa, com o leme a deus dará, esperando ser levado aos lugares onde eu sempre ouvir dizer que seria um sonho, ao paraíso ou à terra do nunca. Juro nesse exato momento, ao Deus do mar, dono dessas belas terras (ou águas), nunca revelarei o segredo desses caminhos. Mesmo porque seria impensável que algum dia eu quisesse voltar para casa. Eu me recusaria a tal loucura. Por isso, seria levado ao julgamento de Poseidon, que me sentenciaria a navegar sem rumo entre marés e tempestades, por anos, décadas, séculos. Daria por encerrada a audiência após bater com a base do tridente sobre as águas. Rapidamente, elas me levariam à mar aberto, náufrago, dentro do meu próprio destino. Meu quebra gelo de papelão não aguentaria tanta tristeza, sendo que acreditaria precisar agora de um cargueiro e caixas de um bom rum. Ainda assim, navegar é preciso.

No outro dia, bem pelo primeiro raio de sol, tomaria o leme novamente nas mãos e navegaria para os limites da prisão de Poseidon. A poucas léguas de suas grades, bradaria por liberdade e jogaria o cargueiro com todo seu peso, com a força de um quebra gelo para cima das estruturas do cárcere. A rebelião causada no mar levaria os pedaços de meu barco para os quatro cantos do mundo, contando das aventuras, das alegrias e tristezas que vivi. Enquanto eu, fugindo da ira do dono do mar, me lembraria das vezes em que estive secando meu barquinho de papel, guardando-o cuidadosamente no bolso da camisa. O mesmo barco que outrora navegava, mais uma vez, no tanque lá de casa. É um desses que quero.

6 comentários sobre “Quero um Barquinho de Papel

  1. Já te disse que adoro os seus textos e de como estes tem o poder de mexer com as coisas (coisas importantes) que muitas vezes escolhemos esquecer?
    Mas navegar é preciso!!! Enfrentar estes monstros tbm!!! Talvez seja por causa deles que preferimos não nos jogar mar afora, ou adentro, como preferir. Talvez seja por eles que escolhemos esquecer. Mas navegar é preciso!!! Quero um desses de papel tbm, pode me arranjar um?

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  2. Que coisa mais linda esta sua crônica Dilvo, é poética e faz a gente viajar junto com este barquinho. Amo barquinhos de papel e fazê-los de origami. Vc pode ser cronista de grandes jornais, como o Estado de Minas ou Folha de S. Paulo, pois escreve tão bem quanto os cronistas deles. Repito o q já escrevi outras vezes: vc é muito talentoso Dilvo !! Um abraço.

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