A Nova Revolução dos Bichos

por Dilvo Rodrigues

Sempre admirei as criaturas que têm o dom de voar. Pena que o voo do pombo, ao contrário do planar de um beija-flor, sempre perde a poesia em certos momentos. Bom, não deixa de ser um direito dele fazer o que quiser enquanto voa, inclusive merda. Eu poderia achar que o pombo é o animal que mais se encaixa no principal mandamento do romance escrito por George Orwell, A Revolução dos Bichos, publicado em 1945; “Quatro patas, bom. Duas pernas, ruim.”. Passados setenta anos, a mensagem nem de longe corre risco de extinção. Desde aquela época, algumas coisas mudaram nas selvas mundo afora. Outras, nem tanto.

Os direitos dos ratos, por exemplo. São animais que quando saem das profundezes sociais de um bueiro, não passam do merecimento de uma paulada. O que chega a ser até um “dever” de nós, humanos, para com eles. Excluindo, é claro, o Mickey, que tem direito a abraços e carinhos dos mais sinceros, ainda que ele cobre uma grana para tal! Além de Mickey, mestre Splinter, Cérebro e Jerry foram os únicos a alcançar respeito e dignidade perante a sociedade. Mas quantos outros ainda vivem no submundo dos esgotos, caçados por cobras e ratoeiras das mais impiedosas? Por outro lado, certos “indivíduos” vivem de glamour. São as principais estrelas fashion de desfiles, merecem festas de aniversários e enterros os mais dignos. As gravatinhas, os chapeuzinhos, óculos, perfumes, tosas as mais em voga na moda, se me permite a possível redundância. Sim, é preciso fazer a crítica: o pedigree não é nada mais que um fator de exclusão social. Nada mudou! Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.

Numa grave e sangrenta revolução dos bichos, os cachorros iriam querer ter seu próprio código maior de direitos e deveres. Eles teriam força política para isso, já que lançariam mão, sem dúvida, de um amigo poderoso e de longa data. Um apadrinhamento político entre espécies; algo nunca visto antes na história. E quem seria o redator do texto “cãostitucional”? Dálmatas, Bull Dogs, Pinscher ou Pit Bulls? Tenho certeza, não seria os Chihuahuas! E os vira-latas!? Eles formariam a mais nova classe a ingressar em protestos e manifestações de rua, virando e batendo latas e panelas. Deveríamos começar a temer o surgimento dos Black Dogs!? É uma pergunta interessante. Quem poderia pensar que, anos mais tarde, os bichos seriam flagrados apertando as mãos de um inimigo outrora declarado? Os gatos então abandonariam de vez os telhados.

A verdade é que teríamos um problema grave de choque de direitos e deveres entre códigos. Todas as espécies animais iriam querer ter seu próprio documento, contemplando suas próprias questões existenciais. A zebra colocaria no texto, no artigo 3, sobre a dignidade da vida “zebrana”. Enquanto que os leões, no artigo 2, reafirmariam o direito à alimentação, à saúde e à caça de zebras e outros animais indefesos. Vacas e galinhas talvez formassem uma coalização para impedir que passassem a vida toda em um campo de concentração frigorífico. Jacarés contra onças, tigres contra javalis. Será que algum porco velho e sábio seria capaz de controlar os ânimos e remediar a questão? Sonho utópico. Ainda nem temos ideia do que seria as reivindicações dos corvos, chacais, raposas e hienas. Cada um puxando a sardinha para o seu lado!

Numa análise imparcial, depois de séculos de reinado, a monarquia dos leões seria substituída por uma forma de poder capaz de dar voz também aos burros, jegues, jumentos, asnos e cavalos. Ou no mínimo, a realeza das savanas africanas passaria a ser vista como mero simbolismo histórico de poder. Não é de hoje que micos-leões, onças e garoupas representam uma pequena classe de grande poder sempre em ascensão, marcando presença na vida financeira de outros animais e bancando as festas selvagens mais extravagantes. Lugares esses onde cada avestruz bebe espumante numa taça personalizada e, por baixo dos panos, macacos quebram os galhos uns dos outros. Na nova revolução dos bichos só sobrevivem aqueles que, além de galhos, também investem em cipós.

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