As Estrelas que não Brilham Tanto

Por Dilvo Rodrigues

Sirius é a estrela mais brilhante no céu noturno, isso levando em consideração um observador posicionado na Terra. Na verdade, Sirius é um sistema composto por duas estrelas, a Sirius A (a estrela maior) e a Sirius B, uma estrela anã que só pode ser vista com instrumentos óticos de auto desempenho. Li isso em um site sobre astronomia. Na página também dizia que só as estrelas mais brilhantes tem a honra de serem nomeadas. Assim, além da Sirius, existem Canopus, Arcturus, Vega, Capela, Rigel etc. Isso só para listar algumas entre as dez mais brilhantes. Quantas delas existem? Difícil saber. O certo é que como o sol voltará amanhã, as estrelas estarão lá quando ele se for, mais uma vez.

As famosas Três Marias na realidade se chamam Mintaka, Alnilan e Aniltaka. Uma estrela descoberta recentemente por pesquisadores brasileiros ganhou o nome de HIP 102152. Não sei de qual se trata, mas provavelmente, é a estrela da sorte de alguém. E no mundo desse alguém, essa estrela deve ter um nome mais significativo.  Conheço pessoas que pegam o carro e vão para fora da cidade só para vê-las brilhando com mais intensidade. Algumas delas são até maiores que o sol, dizem os cientistas. Porém estão tão longe que mais parecem uma pedra preciosa piscando pra gente no forro azul do céu. E tem muita gente que acredita que esse piscar da estrela é um sinal de um parente ou pessoa amada que se foi. Um sinal de que ele está lá, olhando por nós. Mas, reza a lenda, nem sempre houve o pisca-pisca das estrelas.

A Clarice Lispector, por exemplo, conta que um dia faltou milho para fazer comida para os índios numa tribo dessas qualquer. As mulheres, responsáveis por colocar comida na mesa, saíram em busca do alimento. Não acharam nada. Elas resolveram então chamar os curumins (crianças) para ajudar na caçada. E os danadinhos foram certeiros, acharam um milharal vistoso. Porém, resolveram entregar as espigas para avó fazer bolo de milho. Os curumins então se empanturraram de bolo, mas logo ficaram com medo das mães descobrirem a travessura. As crianças então pediram ajuda aos colibris, que amarraram uma corda no pano do céu e os pequeninos foram subindo um a um. Quando as mães índias chegaram e viram seus filhos subindo ao topo do céu, correram a subir atrás e cortaram a corda embaixo dos pés deles. Elas, a medida que caíam na terra, se transformavam em onças. As crianças já não podiam mais voltar à terra, se fizeram “gordas estrelas brilhantes.” E lá estão até hoje.

Nunca fui tão curioso com estrelas como sou com mitologia. É difícil para mim. Eu consigo imaginar as figuras mitológicas e seus poderes. Poderia produzir um filme sobre elas. Mas, não tenho o mesmo talento para ver os desenhos das constelações de estrelas no céu. Eu vejo o cavalo numa nuvem que passa lentamente frente ao pico. Mas, nunca consegui ver a imagem da constelação de escorpião de maneira alguma. Talvez por que a luzes da cidade acesas atrapalhem.  E olha que as estrelas tem tudo a ver com mitologia.

Quando criança eu imaginava que as estrelas cadentes eram o elixir da vida de gigantes adormecidos na terra. Elas passavam no céu brilhando, em alta velocidade e quando sumiam era por que já estavam no peito desses seres, fazendo-os reviver e cumprir os desejos feitos durante a passagem da estrela pelo céu. Sim, eu acreditava que seu pedisse à estrela cadente mais um dia de férias, era o gigante que iria realizar meu desejo.  E quando o desejo não se tornasse realidade, o gigante tirava a estrela do peito, colocava no pano do céu e voltava a adormecer na terra. É esse, na minha visão infantil, o motivo de o céu ser tão cheio de estrelas. O Céu é então uma constelação de desejos não realizados ou aguardando para serem concretizados. Muitos professores de física e amigos céticos tentaram destruir minha fantasia estelar. Pra eles, as estrelas cadentes nada mais são que “pedregulhos espaciais”, envoltas de fogo ao entrar na atmosfera terrestre. Pode até ser verdade, mas continuo fazendo pedidos quando as vejo passar. E cada vez mais brotam “seres brilhantes” no céu. Hoje, o que reforça minha teoria é que muitas pessoas vão lá fora para achar uma estrela específica, por que a luz da cidade ofusca ainda aquelas que não brilham tanto, aquelas que não tem nome ou mesmo as outrora esquecidas.

2 comentários sobre “As Estrelas que não Brilham Tanto

  1. Beleza de crônica Dilvo, gosto de histórias como as q vc contou aqui. Lá no Alto Caparaó é melhor para ver as estrelas, como é lindo um céu cheio delas. Clores Lage, prima da minha mãe escreveu um poema para o meu pai já falecido q começa assim: “Nelson Nunes Coelho , o pai da ABC. Hoje estrela brilhante,silêncio e paz, lua cheia no alto do céu…”

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s