A Marca da Estrela

Por Dilvo Rodrigues

Era uma pescaria daquelas que a gente fica o dia inteiro tentando fisgar o danado do peixe. A lagoa dos Medeiros já não fazia fartura na mesa dos pescadores da região. Mas, todo mundo gostava de gastar um bom tempo jogando prosa fora, pitando uns cigarros e olhando o lugar, que era bonito que só. A lagoa tinha águas azuladas e tranquilas. Em volta tinha uma pastagem verde, era tanto mais verde quanto mais brilhasse o sol. E ao fundo, tinha um monte, um rochedo chamado de Olheiro. Quando algum pescador conta história mentirosa, o monte vira gente e chega na roda de conversa, com aquele chapéu preto, desmentindo o 171 do cabra. Eu nunca vi acontecer, mas os mais velhos dizem que é de vera. Vai ver todo mundo começou a dizer só a verdade desde então.

Sentado no meu barco eu me lembrava desses casos tudo, mas nem sinal de um “lambarizin” sequer. Foi aí que eu vi uma estrela despencando lá do céu. Numa velocidade que nem o alazão mais rápido dessas bandas conseguiria alcançar. A estrela vinha soltando fumaça, que o céu até chegava a ficar “branquin”, como se a gente tivesse jogado talco no pano do firmamento.  Ela vinha pros cantos da lagoa. Fiquei aperreado de sair correndo ou não. O negócio dava medo e era bonito demais. Era feito um cavalo chucro e selvagem desses, lindo de ver, doido querendo ser dominado, a gente sente aquela vontade de montar, mas morre de medo. Foi quando a estrela bateu no Olheiro e veio descendo rasgando a pedra inteira. Aquilo foi de um barulho! Ela quicou mais umas três vezes no monte, outra na pastagem e caiu direto na lagoa. A água começou a sair fumaça e borbulha, numa revolta de mar de ressaca. De repente, tudo se apaziguou novamente.

Fiquei na espreita por mais um tempo, pensando se deveria ir embora ou não. Achei que o fogo da estrela tinha sido consumido pela água fria da lagoa. Bateu até uma tristeza de ver as obras de Deus morrendo assim. De repente aconteceu algo muito misterioso pro meu entendimento. Um tanto de estrelas menores dispararam a flutuar, como se fosse peixe vindo buscar ar na lâmina d’agua. Meu medo passou, aquele “bicho gigante” tinha batido com tanta força na pedra e na água que acabou se quebrando e morrendo. Do nada, sinto algo cutucando meu ombro. Achei que era um pernilongo desses que parecem um boi, mas “num era”. Era uma estrelinha bem miudinha com um brilho danado, indo de um lado “pro” outro na velocidade de beija-flor. “O que Deus quer comigo mandando essa coisa vir aqui?” Eu ficava encucado. E ela ia lá no fundo d’agua e voltava e girava, rodava quando de repente parou a dois dedos da ponta do meu nariz.

Uma voz saiu lá de dentro dela, uma voz calma e baixa, como se minha mãe ou uma pessoa que me ama por demais nesse mundo tivesse falando comigo. Mas não tava no meu ouvido, a voz só dava pra ouvir dentro da minha cabeça.  E fiz o que ela pediu. Abri a mão, a estrelinha “veio vindo” devagarinho para minha palma direita e por um pisca de olho ela ficou deitada ali. Tapei as vistas com a outra mão. Minha mão deu a queimar, mas era um fogo bom e eu queria mais daquilo.  Quando já não aguentava mais da dor, tornei a abrir os olhos de novo, e a estrela parecia estar se fundindo na minha mão. Era bonito de ver. Com pouco ela sumiu, não sei se entrou “pra dentro” de mim ou se se transformou em outra coisa. Talvez tenha voltado para dentro daquele “mundareu” de água. Não sei.

Quando eu conto a história, todo mundo pede “pra” ver a danada da marca na mão direita. A marca que não está nela, que só eu vi naquele momento naquele barco. Tem até um rabisco, mas todo mundo diz que aquilo é corte de arame farpado. Uma coisa é certa e fico feliz por isso. O Olheiro nunca me apareceu me apontando de mentiroso. E, todo dia eu volto naquela lagoa pra procurar algum vestígio dela, que só deixou uma marquinha quase de nada na palma da minha mão.

11 comentários sobre “A Marca da Estrela

  1. Parabéns Dilvo! Linda e bastante inteligente a sua crônica. Adorei lê-la. Contém algo de surreal
    mas nem por isso perde a conotação de ingenuidade que se mistura à ternura, muito próprio de
    sonhos pueris que só as crianças mesmo são capazes de sonhar. Continue assim amigo. E que Deus lhe abençoe sempre! Ah, a propósito, vou gravar nos meus arquivos pessoais para a reler de quando em vez, combinados?
    Quero enviar-lhe uma que escrevi e não se conseguirei fazê-lo por aqui. Se não chegar por aqui, me mande o seu e-mail e a enviarei, combinados?
    Marco Polo Ferrari

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