O Triste Fim do Palhaço Leopoldo

por Dilvo Rodrigues

“O espetáculo está chegando ao fim, senhoras e senhores.” A criançada faz uma carinha de triste, mas o palhaço tinha repertório para um último número. “Eu também sei tirar coelho da cartola. Vocês querem ver?”. “Sim”, disse a plateia, aos berros. “Vocês querem ver?”. “Sim!”, repetiu de novo a plateia. Ele jogou um pirulito dentro da cartola, acrescentou confete, um apito e uma ratoeira. “Tem que agitar bem agora! Você, você me ajude aqui a agitar com toda sua força, hein!”. A garota da primeira fila até apertou os dentes ao colocar toda sua força para misturar os ingredientes na cartola. O palhaço olhou encucado: “Tá faltando alguma coisa. O que tá faltando?”. “Jujuba”, gritou o joãozinho. “Tá faltando pipoca.”, “Tá faltando arco-íris.”, berrou algum pestinha la do fundo. Ele levantou o dedo indicador e ao mesmo tempo ia dizendo: “Não, não, não, senhoras e senhores. Tá faltando sorrisos.” Ele se aproximou de várias crianças pedindo para que elas sorrissem dentro da cartola. “Sorria, sorria, sorriaaaa.”. E tampou a cartola com uma das mãos para que os sorrisos infantis não fugissem.

Naquela noite, o palhaço retirou um buque de flores da cartola. Não foi o prometido coelho. Mas, ele pôde dividir cada flor com algumas crianças, que ficaram admiradas com a mágica atrapalhada. Naquela noite, há vinte anos, ele permaneceu ali no picadeiro, durante muitas horas. As crianças tinham ido para suas casas. As luzes se apagaram, o faxineiro passava a vassoura nos últimos metros da arquibancada. Ninguém mais dava risadas ou gritava “Sim, senhor!”. Ele repetia as travessuras e mágicas atrapalhadas para si mesmo, sozinho no escuro, mas os aplausos e os sorrisos estavam lá, no fim de cada número. Talvez saíssem também de dentro da cartola, talvez fossem apenas fruto da imaginação da alma de um artista. Hoje, ele repetira a mesma apresentação, idêntica àquela de fevereiro de duas décadas atrás. Mas, a animação e a disposição dele já não eram as mesmas. As gargalhadas já não eram tão altas e os sorrisos não eram mais largos como o de costume. Às vezes dizia a si mesmo que o tempo do circo tinha chegado ao fim, às vezes dizia que o palhaço Leopoldo perdera a graça. E ele ficou ali novamente, até a última luz se apagar, até o último vassourada na arquibancada, repetindo os números só para si mesmo, no escuro. Porém, dessa vez, não havia um pio se quer. Nada além do vento que arrastava algumas sacolinhas de pipoca pelo chão.

Leopoldo já não dava risada de suas palhaçadas. Se tornou um palhaço triste, que não disfarçava suas lágrimas. As pessoas não percebiam, talvez por que o sorriso estivesse lá, pintado na face do artista. “As flores precisam de água, senhoras e senhores. Alguém tem um gole d’água?”. E o pestinha dizia: “Tenho cuspe!”, “tenho refrigerante”, dizia outro mostrando a lata da bebida. “As flores precisam também de carinho, muito e muito e muito carinho.” E o palhaço então regava cada botão de rosa com uma gota de suas lágrimas. As crianças se admiravam com a poesia das lágrimas do palhaço desabrochando a flor. Mas e o palhaço Leopoldo, o que sentia? Ele só parava de chorar quando não havia mais nenhum botão de flor para regar.

Quem não acha graça de si mesmo, morre lentamente. É o que diz o ditado popular. “Talvez seja a hora de sair de cena.”, segredou Leopoldo ao mágico. “Mas, que ideia maravilhosa!”,pensou o mágico. “Como assim?”, retrucou o palhaço, novamente encucado. “Já vejo a chamada do novo espetáculo ‘O Triste Fim do Palhaço Leopoldo’. Eu posso fazer você desaparecer no meio do palco, na frente de todo mundo. O que acha?”. O triste fim de um palhaço poderia ser até um espetáculo interessante, mas para ele seria uma tragédia circense. Ele não topou fazer, muito menos com a mágica de desaparecimento do meio do palco.

No seu último espetáculo, o Leopoldo chorava e os outros achavam graça. E quanto ele mais chorava, mais as crianças arregalavam os beiços. E ele fez tudo como sempre, como o de costume. Ele fez a mágica da cartola, ele pediu sorrisos da plateia e distribuiu flores para as crianças. O espetáculo terminou e todos foram para suas casas, deitar em suas camas. Porém, dessa vez, Leopoldo saiu de cena logo após o fim do espetáculo, antes da primeira luz se apagar, antes que as arquibancadas fossem limpas e antes que o som do vento espalhando os saquinhos de pipoca se fizesse presente.

5 comentários sobre “O Triste Fim do Palhaço Leopoldo

  1. Dilvo, realmente você é um exímio cronista!! Excelente crônica, me senti numa arquibancada de circo, assistindo as apresentações deste triste palhaço. Só fico pensando que se alguma criança o visse de pertinho, perceberia a imensa tristeza por detrás das palhaçadas…

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    • Obrigado, Maracy! Acho que as crianças iriam ver a tristeza dele como uma palhaçada, mais alguma artimanha pra fazer rir. Porém, olhando de pertinho, daí já não sei como seria. Talvez, seja assunto para um próximo e último capítulo do Triste Fim do Leopoldo!

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