Um Sentimento

por Anselmo Miranda

Semente
Germina
Floresce
Definha.

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Retalhos

por Anselmo Miranda

Uma folha de papel é feita para deitar palavras. É a cama da alma do poeta, que muitas vezes não espera ter seu sono velado. Mas sempre lamenta não ter sonhado.

A cama, testemunha das orações, retalhos e anseios, é companheira de invernos e mágoas, o papel onde também se deitam as lágrimas.

Sapatos por Engraxar

A cena do homem sentado numa cadeira suspensa, tendo os sapatos engraxados por alguma outra pessoa sempre me intrigou. Na minha infância, primeiramente, eu demorei a entender a cena em si. Ficava me perguntando por que um sujeito precisa se sentar naquela cadeira alta, todo mundo vendo ele, só por estar bem vestido? Eu passava e não conseguia desviar o olho da feição de quem estivesse lá. Depois de um tempo é que fui compreender a situação. O cara fica numa posição mais elevada para facilitar o trabalho do engraxate, que não precisa ficar todo enjambrado durante o serviço.

Outra incompreensão vinha de um procedimento comparativo, talvez até um pouco ingênuo, mas que para uma criança faz muito sentido. Eu via meu pai sempre engraxando os sapatos dele em casa. Ele tinha todas aquelas ferramentas utilizadas e, vez ou outra eu até acompanhava na tarefa. Ele se sentava numa cadeira dessas de mesa, com um sapato na mão, uma espécie de escova na outra e a graxa no chão. Com pouco, o calçado ficava lustroso. Se não fosse o desgaste das solas, pareceria novo. A segunda indagação nascia então desse fato. “Por que cada um não engraxa seus próprios sapatos, assim como meu pai faz?” Sem dúvida, essa é uma pergunta para a qual não alcancei resposta alguma, em todos esses anos. Esse tipo de comparação já foi feito nas minhas caraminholas em diversos assuntos, um deles é a barba.

Dificilmente uso sapato. Eles saem da gaveta apenas para um casamento, uma ocasião dessas bem especial, a qual a noiva ou noivo, ou o aniversariante ficaria bastante descontente se eu aparecesse de botina e camisa xadrez. Também costumo relutar e declinar a ideia de lustrar o calçado. Toda vez que o fiz, o brilho ficou tão excessivo que me sentia estar com uma daquelas bolas espelhadas de discoteca no pés. Prefiro o sapato social orgulhoso de algumas rugas e simplesmente limpo. Entretanto, sei que existem pessoas que julgam um homem pelo calçado. Por isso, nunca quis parecer extravagante, muito menos desleixado. O certo é que pouca gente ousa levar em conta o quanto de terra, areia e pedregulhos cada um retira do seu próprio sapato, os rabiscos na bico, os desgaste no salto. A graxa então é como uma máscara, um botox.

Ontem, lavei todos os meus calçados, na escova e no sabão caseiro. Sentei numa cadeira de mesa, com um balde de água no chão, esfreguei um por um, da sola ao cadarço. Ao mesmo tempo, me ocorria a história de um quadro do Van Gogh, “O Par de Sapatos”. O pintor teria comprado os calçados para retratar, mas teria achado que os exemplares estavam muito limpos. Por isso, resolveu calçá-los, para uma boa caminhada em um dia de chuva. Por aqui, os meus, depois de lavados, ficaram todos muito limpinhos, que até parece que só agora é que comecei a caminhar pela vida. O sapato social continua na gaveta, acumulando poeira e teias de aranha. Meu pai tem usado tênis, parecem ser mais confortáveis e fáceis de limpar. E, ainda vejo homens sentados em cadeiras elevadas, bem vestidos, com sapatos por engraxar.

(Re) Florescer

Houve uma flor no meu coração
Houve o cheiro, a textura e o tom
O orvalho perfurando o chão
À semente novamente vou.

A terra me recebe em seu colo
Me aquece em um manto vermelho
Que o destino me parece um só:
Lhe dar flores o ano inteiro.

Mas um dia haverá de cessar
Tudo o que germina aqui dentro
No meu peito então há de restar
Pétala em tons de lamento.

Uma nova flor no meu coração
Peço de joelhos, em oração
Por que tudo tem o seu tempo
Vivo espinhos nesse momento.

A Folha Seca

por Anselmo Miranda

Folha aos quatro ventos
Folha seca, errante, deprimente
Sem futuro, sem presente
Folha de pasto.

As raízes descontentes
Agora choram intermitentes
E tem se perguntado
Por onde a folha tem andado.

Noutros bosques, noutros entes
Folha seca deu sementes
E a grande árvore tem evocado:

“ Ó rainha de verdejantes paisagens,
Acreditarias que desta folha seca
jardins tem brotado?”

A Comunhão

por Anselmo Miranda

Versos e palavras
Entes imaginários
da boca que diz,
daquele que escuta.

Sendo uma questão de alma
ou assunto do coração
Na ponta da caneta de quem fala,
ou de quem faz a interpretação.

A poesia desempossa os convictos
do trono de suas certezas.
Desautoriza razões
ainda que faça promessas.

Não é mácula, nem brilho
Às vezes é exílio.
é o todo, vácuo, vazio.
Antes disso, poesia é comunhão.