Litorânea

por Anselmo Miranda

Enquanto a noite chega ameaçando o dia, aos meus olhos fogem os barcos no horizonte. Daqui dessa areia fina e cinzenta, cessam o barulho das águas no vir, enquanto sonoras se fazer outras ao ir.

Com a brisa fria deste impiedoso mar em arrebentação, janelas batem ao fundo, guardando aconchegante solidão. Tantas luzes brilham distantes, feito vaga-lumes, faróis flutuantes. E o latido dos cães que corre no vento, o mar não devolve, não lamento.

Tenho conta das conchas esquecidas na praia, de pegadas em fila para qualquer direção. A cantiga serena na copa das árvores, estrela cadente, eis a oração. O cardume que agora se aproxima da rede findou sua jornada, peço que me alimente.

Sobre Oposição

por Anselmo Miranda

O Som perpassa os pingos de chuva
A luz penetra as nuvens cinzentas
O frio descobre as fissuras da manta
O choro quebranta as amarras internas.

As gotas se arrebentam no chão
Escuras minhas entranhas
Fervendo preocupações
No sorriso manifesto vergonha.

E segue a desmedida sintonia
Entre o posto e a transição
O errado contrapondo o não.

Nesse embate, diz quem nasce é a vida
Sem pergunta, atrevida
muitas vezes até sem perdão.

No Dia Internacional da Mulher…

Parabéns para quem é de comemoração. Amor à quem é de amar. Força para quem é de luta. O Meras Crônicas deseja que toda mulher se realize nos objetivos que satisfazem seu coração, sua alma ou seu intelecto.

O blog gostaria de fazer um agradecimento especial a todas as mulheres que passaram por aqui, nos inspirando com suas histórias, com suas visões, sabedoria, perspicácia e sensibilidade. Mas, principalmente, por nos ensinarem a ter uma inabalável fé na vida. Em especial: Dani Zan, Zélia Gláucia Do Monte, Camila Gontijo e Flavia Auler. Muito obrigado, queridas!

E, essa reverencia se estende a todas as outras que foram faíscas, ou mesmo, essência de tantas textos publicados por aqui. Como também, àquelas que ainda irão nos inspirar a escrita, a vida.

Amor de Menino

por Anselmo Miranda

Se eu lhe der um beijo
Se eu der um jeito
Se eu fizer direito
Se eu for o primeiro

na esquina, da tua rua
na escola, da tua turma
ou um simples garoto a passar.

Tímido, esquecido,
menino franzino
incapaz de provar

Se eu seria o primeiro
Se eu faria direito
Não saberia do jeito
de um beijo lhe dar.

Nascidos da Terra

por Dilvo Rodrigues

A cada passo dado nesse solo vermelho, a terra é que deixa suas pegadas nas solas de meus pés. Ao passo que caminho nessa estrada, percebo que o por do sol pretende imitar a tonalidade do chão. Um ponto do céu parece se energizar em vermelho, o que dura apenas alguns minutos. No fim, volto a ficar impressionado com a tonalidade da terra e com o extenso verde dos campos de soja. Além dele, apenas o tonalidade negra do asfalto vence as marcas da terra. Mas isso, só lá muito longe da parte rural da cidade.

A história conta que os solos vermelhos ou roxos são muito férteis. Não foram os que Pero Vaz de Caminha encontrou na Bahia, nos idos do descobrimento do Brasil, mas corroboram a assertiva enviada na carta endereçada à Coroa Portuguesa – “Nesta terra, em se plantando, tudo dá”. Já me peguei pensando que talvez tenha sido retirado dessa terra o pó que Deus utilizou para construir o homem. Por isso, o sangue é vermelho, a carne é vermelha.

Toda vez que volto a essa terra e a toco com meus pés ou com minhas mãos, me sinto regenerar. Como se, pouco a pouco, parte do pó de minha essência tivesse sido perdida pelos caminhos da vida. Aqui, com os pés no chão, as lacunas abertas pela gastura das lutas são novamente preenchidas. A essência com que a força divina me construiu se põe novamente em completude, algo que só acontece nesse regressar. Mas sempre acontece. Por isso digo, não é preciso morrer para voltar à terra, basta viver.

Com um pouco mais de atenção, é possível perceber que não só os homens foram feitos dessa mesma matéria-prima. Por aqui, os cães e gatos estão manchados dela, assim como os cascos dos cavalos, os pneus dos carros, as árvores e as frutas, as aves, os rios, a cidade, que sobrevive dos produtos desse solo. Porém, comemora o pavimento, o anti-pó, a barra da calça sem carrapicho. Que bom que isso é só lá, muito longe da parte rural da cidade. Triste é tentar esconder de onde viemos, o que somos. Me dou conta disso, quando viajo por outras terras tão belas quanto essas.

Certa vez um professor contou ter tido uma doença que o fazia comer terra. Olhando agora para esse vasto vermelho e para tudo que a partir dele toma vida, eu diria hoje para meu caro professor que isso não é doença, que nada. No máximo, é um ritual de autofagia. Ou seja, aquilo que acaba se nutrindo da própria carne, do próprio espírito ou essência. Separar o homem da terra é o pior dos males da humanidade. É como impedir dois irmãos de viverem juntos, ou de retirar um filho da presença do próprio pai ou de sua mãe. Pode ser que seja pior, pois talvez seja a maneira mais radical de apartar o homem de si mesmo. Por isso, não me canso de dizer: É preciso voltar para terra.