Tacho Furado

Por Anselmo Miranda

“Tenho andado cabisbaixo,
feito bicho solitário,
bicho do mato.
E, no meio do mato,
não sei se me acho,
se me escondo
ou se fico ali, com cara de tacho.
Tacho vazio e furado.
Grande imprestável.
Tamanho o buraco dentro de si, nada represa, tudo deságua.”

Amor de Cinema

por Dilvo Rodrigues

As luzes se apagam, nossos dedos se entrelaçam e ficam ali, colados sessão adentro. Às vezes a gente se solta, para uma pipoca, uma bebida. Mas logo se procura de novo. E se acha, feito herói em busca do tesouro perdido.

No cinema, a vida dá lugar a ficção, a fantasia de uma felicidade completa e ininterrupta. É uma fábrica de sonhos. Mas tudo isso se dissolve, a realidade se coloca firme novamente porque estou conscientemente preso a suas mãos. Por isso, não invejo nenhum dos personagens que agora enchem a tela. Nesse cenário que eu mesmo criei, a atriz que eu mesmo escolhi, numa história que vence o tempo.

O som ecoa por toda a sala, as pessoas se arranjam nas poltronas, seus cabelos estão nos meus ombros, e dali você me olha num silêncio com tantas palavras. Eu não previ, mas isso encaixa bem no roteiro.

Na sequência do desfecho do herói, feliz pelos feitos alcançados, a sala ensaia um tom entusiasmado com o inesperado final. As luzes se acendem, nossas mãos se afastam, a vida volta ao começo, o que para nós é o fim. Um fim até o próximo lançamento.

Tudo Fora do Lugar

por Anselmo Miranda

Boto o meu colchão na sala
o coração no forno
os livros debaixo da mesa.
Puxo a cadeira de dentro da mala
A grama no banheiro
a porta, o travesseiro bagunçados na despensa.

dormindo na geladeira
meus dentes na janela
me banho no teto
do varal de pratos

Minha casa é pequena
as roupas cabem nas panelas
poucas paredes para falar
dois passos para cruzar
onde tudo está fora do lugar.

Mais um dia na Rio Vermelho

A Rua amanhece às 5 da matina, com o estalar dos cadeados, o abrir e fechar dos portões e os passos de quem ruma para o trabalho. Os coletivos passam na avenida, a duas esquinas depois. Por isso, quem pode ficar na cama por mais algumas horas, continua num sono digno. É a chegada dos pedreiros na obra da vizinha ao lado direito que torna a Rio Vermelho um tanto atribulada. O trambolhar da betoneira é o despertador de muitos por aqui, inclusive o meu. O espaço de tempo entre cada marretada na parede é o máximo que se pode aproveitar de uma função soneca. “Ô Zé, prepara a massa. Dois carrinhos de areia, não deixa empelotar muito, não.”. Poderia ser uma bela receita de bolo. Outro dia um dos pedreiros bateu aqui no portão de casa. “Ô vizinho, podemos usar sua calçada pra deixar o material. Deixamo tudo limpo depois.” Eu disse, “tudo bem.”, e os caras encheram minha calçada de brita e pedaço de madeira velha. Se eu fosse encucado, acharia aquilo uma provocação, um atrevimento do destino. A obra já vai caminhando para os finalmentes, o que tem me deixado aliviado. E ai se não cumprirem o combinado! Sou chato com limpeza.
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O Lugar do Pai, da Mãe e do Filho

por Anselmo Miranda

O pai dá lugar ao filho, enquanto o filho se torna pai. A mãe permanece no filho, que, pela lei da vida, é do mundo, e é da mãe. Ainda que resolva todo perigo, durante o caminho seguido, um filho nunca será esquecido das preces e das orações.

O pai dá lugar ao filho, enquanto o filho se torna pai. A mãe alimenta o destino, no crescimento do filho, e no acalento que faz. Um dia de ninho vazio, é saudade, repleta aflição. Agora, o filho dorme quietinho, e sempre encontra abrigo no peito da mãe.

O Pai dá lugar ao filho, enquanto o filho se torna pai. No colo da mãe, eterno é o lugar da criança, ainda que o filho cresça. O pai senta no colo do tempo, enquanto o pequeno brinca, ainda que não pareça.