No Dia Internacional da Mulher…

Parabéns para quem é de comemoração. Amor à quem é de amar. Força para quem é de luta. O Meras Crônicas deseja que toda mulher se realize nos objetivos que satisfazem seu coração, sua alma ou seu intelecto.

O blog gostaria de fazer um agradecimento especial a todas as mulheres que passaram por aqui, nos inspirando com suas histórias, com suas visões, sabedoria, perspicácia e sensibilidade. Mas, principalmente, por nos ensinarem a ter uma inabalável fé na vida. Em especial: Dani Zan, Zélia Gláucia Do Monte, Camila Gontijo e Flavia Auler. Muito obrigado, queridas!

E, essa reverencia se estende a todas as outras que foram faíscas, ou mesmo, essência de tantas textos publicados por aqui. Como também, àquelas que ainda irão nos inspirar a escrita, a vida.

Amor de Menino

por Anselmo Miranda

Se eu lhe der um beijo
Se eu der um jeito
Se eu fizer direito
Se eu for o primeiro

na esquina, da tua rua
na escola, da tua turma
ou um simples garoto a passar.

Tímido, esquecido,
menino franzino
incapaz de provar

Se eu seria o primeiro
Se eu faria direito
Não saberia do jeito
de um beijo lhe dar.

Nascidos da Terra

por Dilvo Rodrigues

A cada passo dado nesse solo vermelho, a terra é que deixa suas pegadas nas solas de meus pés. Ao passo que caminho nessa estrada, percebo que o por do sol pretende imitar a tonalidade do chão. Um ponto do céu parece se energizar em vermelho, o que dura apenas alguns minutos. No fim, volto a ficar impressionado com a tonalidade da terra e com o extenso verde dos campos de soja. Além dele, apenas o tonalidade negra do asfalto vence as marcas da terra. Mas isso, só lá muito longe da parte rural da cidade.

A história conta que os solos vermelhos ou roxos são muito férteis. Não foram os que Pero Vaz de Caminha encontrou na Bahia, nos idos do descobrimento do Brasil, mas corroboram a assertiva enviada na carta endereçada à Coroa Portuguesa – “Nesta terra, em se plantando, tudo dá”. Já me peguei pensando que talvez tenha sido retirado dessa terra o pó que Deus utilizou para construir o homem. Por isso, o sangue é vermelho, a carne é vermelha.

Toda vez que volto a essa terra e a toco com meus pés ou com minhas mãos, me sinto regenerar. Como se, pouco a pouco, parte do pó de minha essência tivesse sido perdida pelos caminhos da vida. Aqui, com os pés no chão, as lacunas abertas pela gastura das lutas são novamente preenchidas. A essência com que a força divina me construiu se põe novamente em completude, algo que só acontece nesse regressar. Mas sempre acontece. Por isso digo, não é preciso morrer para voltar à terra, basta viver.

Com um pouco mais de atenção, é possível perceber que não só os homens foram feitos dessa mesma matéria-prima. Por aqui, os cães e gatos estão manchados dela, assim como os cascos dos cavalos, os pneus dos carros, as árvores e as frutas, as aves, os rios, a cidade, que sobrevive dos produtos desse solo. Porém, comemora o pavimento, o anti-pó, a barra da calça sem carrapicho. Que bom que isso é só lá, muito longe da parte rural da cidade. Triste é tentar esconder de onde viemos, o que somos. Me dou conta disso, quando viajo por outras terras tão belas quanto essas.

Certa vez um professor contou ter tido uma doença que o fazia comer terra. Olhando agora para esse vasto vermelho e para tudo que a partir dele toma vida, eu diria hoje para meu caro professor que isso não é doença, que nada. No máximo, é um ritual de autofagia. Ou seja, aquilo que acaba se nutrindo da própria carne, do próprio espírito ou essência. Separar o homem da terra é o pior dos males da humanidade. É como impedir dois irmãos de viverem juntos, ou de retirar um filho da presença do próprio pai ou de sua mãe. Pode ser que seja pior, pois talvez seja a maneira mais radical de apartar o homem de si mesmo. Por isso, não me canso de dizer: É preciso voltar para terra.

Esses Sonhos Imensos

por Dilvo Rodrigues

A senhora tinha sotaque mineiro, desses de gente que mora perto da capital. Nunca havia visto. Chegou sorrindo. Tinha um ar religioso, ao mesmo tempo, uma postura de mulher conhecedora das coisas terrenas. Eu chegava a duvidar. Ultimamente tenho duvidado dessas mulheres que sabem de tudo. Dos homens, tenho certeza, sabem nada.

– Quem é? – perguntei.
– Adélia.
– Adélia quem?
– Adélia Prado.

Ela entrou, se sentou. Ela deve ter olhado para todo mundo e cada um de todo mundo só olhou para ela. Inclusive, eu.

– Senhoras e senhores, temos a honra de receber no nosso Sarau a grande poeta Adélia Prado. – disse o locutor com voz de anunciação.

O sujeito passou o microfone. Ela abriu um folheto qualquer nas mãos e iniciou a leitura em voz baixa. Alguém gritou “Mais alto, Mais alto!”. A poeta olhou para o céu, pediu desculpas, virou a página do folheto e voltou a ler.

– Um grande homem precisa ter um coração, um coração que se apresse apenas em conquistar sonhos singelos. E os homens pequenos? Ah, esses sonhos são imensos.

Continuei sonhando.